Kevin Warsh sentou-se diante do Senado americano e repetiu o mantra que todo postulante a czar monetário precisa recitar antes de receber o anel: o Federal Reserve precisa ser independente, blindado contra a política, imune às paixões do momento. Belíssimo. Comovente. E absolutamente falso na prática, como qualquer um que tenha acompanhado os últimos quarenta anos de reuniões do FOMC pode atestar sem esforço. Independência, no dialeto dos banqueiros centrais, significa uma coisa muito específica: independência do contribuinte, do eleitor e de qualquer forma de responsabilização real. Do Tesouro, do mercado financeiro e dos grandes bancos que se alimentam do balcão do Fed, jamais.
Vale lembrar quem é o candidato. Warsh foi diretor do Fed exatamente durante o espetáculo de 2008, quando o banco central, independente que só ele, socorreu Bear Stearns, deixou cair o Lehman, salvou o AIG, comprou lixo hipotecário por atacado e inaugurou a era da flexibilização quantitativa que transferiu trilhões dos poupadores para os detentores de ativos. Antes disso, Morgan Stanley. Depois disso, Stanford, think tanks, conselhos. A trilha do dinheiro desenha uma figura conhecida: o homem que circula entre Wall Street, Washington e a academia como quem troca de sala no mesmo edifício, e que agora promete, de peito aberto, proteger o cidadão comum da influência política sobre a moeda que ele usa para comprar pão.
O truque retórico da independência funciona porque transfere o debate do terreno concreto para o terreno mitológico. Discutir se o Fed deveria existir, se um comitê de doze iluminados deveria fixar o preço mais importante da economia capitalista, que é o juro, se é razoável que um cartel de emissores privados detenha monopólio sobre a moeda de reserva global, tudo isso fica fora de pauta. Em vez disso, debate-se se o presidente vai poder ligar reclamando da taxa, como se este fosse o problema. O problema não é a ligação do presidente. O problema é que existe um telefone, existe um comitê e existe uma impressora ligada a ambos.
Nenhuma mente humana, nenhum comitê de doutores, nenhum algoritmo do Bureau of Labor Statistics possui o conhecimento disperso entre trezentos milhões de consumidores, produtores, poupadores e investidores para calcular qual deveria ser o custo do capital amanhã de manhã. Só o mercado agrega essa informação, e ele o faz via preços que o próprio Fed se dedica a falsificar há mais de um século. Cada ciclo de boom e bust desde 1913 carrega a digital do banco central, e ainda assim a solução proposta pelos cardeais da casta é sempre a mesma: mais independência, mais discricionariedade, mais poder para os mesmos que produziram o incêndio anterior. Quer dizer, o bombeiro pirômano pede orçamento maior.
Independência de verdade existe, e tem nome antigo: padrão monetário baseado em algo que o governo não possa imprimir. Enquanto houver moeda fiduciária emitida por comitê, haverá captura, haverá inflação dosada para parecer inofensiva, haverá resgate seletivo dos amigos e austeridade dura para o resto. A sabana retórica de Warsh diante dos senadores é ensaio geral para a próxima rodada do mesmo espetáculo. Ele defenderá a autonomia do Fed com a mesma convicção com que defendeu os socorros de 2008, e pelos mesmos motivos.
Me diz uma coisa: alguém acredita seriamente que um homem formado em Stanford, forjado em Morgan Stanley, condecorado pelo próprio Fed, vai ao Senado defender a abolição do privilégio que o sustenta há trinta anos? Independência do Fed, no vocabulário dessa gente, é sinônimo de intocabilidade do arranjo. E arranjo intocável é o nome polido de oligarquia financeira. A inflação dos próximos anos já está sendo assinada agora, em audiências cerimoniais onde todos fingem discutir princípios enquanto negociam cadeiras.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.