O anúncio é simples e a implicação é devastadora: uma montadora sul-coreana decidiu que vai fabricar pickup para americanos, no mercado onde Detroit se entocou por sessenta anos atrás de tarifas, lobby e sentimentalismo patriótico. A Kia quer fatiar o bolo mais protegido da indústria automobilística do Ocidente, e a pergunta que ninguém na imprensa de negócios está fazendo com a seriedade que merece é a seguinte: por que demorou tanto?
A resposta está na política, não no mercado. O segmento de pickups nos Estados Unidos não é um mercado livre. Nunca foi. Desde os anos 1960, a chamada "Chicken Tax", uma tarifa de 25% sobre veículos comerciais leves importados, funciona como uma muralha medieval ao redor do negócio mais lucrativo da indústria automotiva americana. Ford, General Motors e Ram faturaram durante décadas margens obscenas nesse segmento exatamente porque o consumidor americano nunca teve acesso real à concorrência estrangeira em condições iguais. Não é vitória do mérito americano. É vitória do lobista americano. E há uma diferença monumental entre as duas coisas.
O resultado previsível de qualquer proteção artificial é sempre o mesmo: o protegido para de melhorar. As pickups americanas são veículos enormes, pesados, consumidores vorazes de combustível, com interiores que de luxo só têm o preço, e custam hoje entre cinquenta e oitenta mil dólares na configuração básica do que as montadoras chamam, com a cara dura de sempre, de "versão acessível". O consumidor paga essa conta há décadas sem ter para onde reclamar, porque a concorrência foi embargada na alfândega antes de chegar à concessionária. Quando o mercado é vedado, o preço sobe e a qualidade estagna. Isso não é teoria. É o que acontece toda vez, em todo lugar, em todo setor onde o governo decide quem pode e quem não pode competir.
A Kia, assim como a Hyundai e a Toyota antes dela, aprendeu a lidar com esse ambiente da única forma que o ambiente permite: construindo fábricas dentro dos Estados Unidos para fugir das tarifas. Não é livre comércio. É arbitragem regulatória em escala industrial. A montadora sul-coreana não vai exportar pickup da Coreia para a América, porque sabe que o imposto tornaria o produto inviável. Vai montar a pickup em solo americano, contratar trabalhadores americanos, pagar impostos americanos, e ainda assim será saudada pelos protecionistas como exemplo de que "o sistema funcionou". O sistema não funcionou. Foi contornado com inteligência, porque é isso que empresas competentes fazem quando o caminho direto está bloqueado por interesses políticos.
O que assusta Detroit não é a Kia. É a memória do consumidor americano. Nos anos 1970 e 1980, esse mesmo consumidor foi informado de que carros japoneses eram brinquedos, que japonês não sabia fazer carro de verdade, que era questão de patriotismo comprar americano. Então o americano comprou o carro japonês, descobriu que funcionava melhor, custava menos, e nunca mais voltou atrás. A Toyota e a Honda construíram impérios dentro dos Estados Unidos não porque o governo as ajudou, mas porque o consumidor votou com a carteira quando lhe deram a chance. O mercado de pickups americano nunca teve esse momento de verdade. A Kia pode ser o primeiro teste real.
Se até 2030 a Kia colocar uma pickup no mercado americano a um preço competitivo, com qualidade verificável e sem o custo embutido de décadas de proteção política, o consumidor vai comprar. E quando comprar, o argumento inteiro que sustenta a Chicken Tax, os lobbies de Detroit, as tarifas de Trump sobre automóveis e toda a arquitetura de protecionismo que parasita esse setor vai precisar de uma resposta diferente. Porque a única resposta legítima para concorrência estrangeira nunca foi a tarifa. Foi sempre fazer melhor. E fazer melhor, dentro de uma bolha protegida, é justamente o que ninguém tem incentivo para fazer.
Com informações da CNBC. A análise e opinião são do O Algoz.