A Knorex recebeu da Bolsa de Nova York uma notificação de não conformidade por atraso na entrega de relatório periódico, e o ritual previsível se cumpre, comunicado oficial, manchete alarmista, ação penalizada no pregão seguinte, advogados acionados, consultorias contratadas, prazo de carência negociado. Nada disso, repare bem, diz absolutamente nada sobre se a empresa vende mais, vende menos, atende bem seus clientes ou queima caixa. Diz apenas que um formulário não chegou no dia certo à mesa certa do funcionário certo. E é por essa pequenez ritualística que se moveu a máquina inteira.
O curioso é a solenidade com que o mercado trata o episódio. Trata-se, no fim das contas, de papelório atrasado, do mesmo tipo de atraso que qualquer pequeno empresário brasileiro conhece de cor quando esquece de mandar a declaração mensal ao contador. Só que aqui, no andar de cima do capitalismo financeiro globalizado, o atraso vira evento material, gatilho de cláusulas, justificativa para venda automatizada de algoritmos que nem leram o conteúdo do tal relatório. A forma engoliu o conteúdo, e ninguém mais se incomoda com isso porque todo mundo aprendeu a viver de forma.
Pergunte a si mesmo quem ganha com essa engenharia. Ganham os escritórios de advocacia especializados em compliance, que cobram fortunas para preencher caixinhas. Ganham as Big Four de auditoria, que vendem o carimbo de tranquilidade aos investidores institucionais. Ganham os próprios reguladores, cuja relevância depende da existência permanente de infrações para serem punidas, mesmo as mais inócuas. Quem perde é o acionista pulverizado, que vê o valor do papel cair por motivo administrativo, e o consumidor final, que paga embutido no preço dos produtos toda essa orquestra de paletós engomados certificando o óbvio.
Há ainda o lado mais sutil da história, aquele que o noticiário econômico raramente investiga. Quando uma empresa de tecnologia publicitária precisa dedicar departamentos inteiros à produção de relatórios para satisfazer a sanha documental da bolsa, está desviando capital humano e financeiro daquilo que efetivamente cria valor, que é o produto. A regulação que se apresenta como proteção ao investidor frequentemente é o oposto, é um imposto disfarçado sobre a capacidade produtiva, transferido silenciosamente para uma casta de intermediários que não constrói nada, apenas administra a complexidade que ela mesma ajuda a perpetuar.
O argumento padrão dos defensores do arranjo é que sem essas regras a transparência desapareceria e o mercado viraria selvageria. Belo sofisma. Antes da existência dessa floresta regulatória, mercados financeiros funcionavam por reputação, por intermediários que arriscavam o próprio nome, por contratos privados que premiavam a confiança e puniam a má-fé sem precisar de exército de fiscais. O que se chama hoje de proteção é, na prática, a substituição da responsabilidade individual pela conformidade coletiva, um sistema em que ninguém é responsável por nada desde que todos tenham preenchido os formulários certos no momento certo.
A Knorex resolverá seu problema, entregará o relatório, pagará as multas, recontratará consultores e tudo voltará ao normal até a próxima encenação. O episódio é pequeno, mas é por episódios pequenos como este, multiplicados aos milhares todos os dias em todas as bolsas do mundo, que se sustenta uma indústria parasitária que se vende como garantidora da ordem quando na verdade é a maior beneficiária da desordem que finge combater. O cidadão produtivo paga, o burocrata certifica, e o investidor aplaude achando que está sendo protegido.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.