A Coreia do Sul acaba de exportar para o mundo a mais nova fantasia redistributivista da temporada. Um dos principais formuladores de política do país sugeriu que o Estado cobre tributos sobre os lucros das empresas de inteligência artificial e devolva o produto aos cidadãos sob a forma de um "dividendo". A palavra é cuidadosamente escolhida, porque "imposto sobre o sucesso alheio convertido em mesada eleitoral" não caberia no cartaz de campanha. Samsung e SK Hynix, que carregam metade do PIB coreano nas costas via chips de memória, são as vacas leiteiras escolhidas para o ordenhamento moral.

Olha, a primeira pergunta que ninguém em Seul teve coragem de fazer é simples. De quem, exatamente, é esse lucro que será "compartilhado"? Quem acordou às quatro da manhã para projetar litografia de três nanômetros? Quem arriscou bilhões em fábricas que demoram cinco anos para ficarem prontas e podem virar sucata se a próxima geração de chips chegar antes? Não foi o cidadão coreano médio assistindo a dorama no sofá. Foi engenheiro, foi acionista, foi quem aceitou o risco. Chamar de "dividendo" o que se tira de quem produziu para dar a quem não produziu é a mesma operação semântica que transformou "esmola" em "renda básica" e "confisco" em "justiça fiscal". A palavra muda, a coisa não.

O truque é antigo e funciona porque o eleitor não vê o que não acontece. O dividendo que cair na conta do coreano comum vai ser visível, palpável, comemorado. O que ninguém vai ver é a fábrica que a Samsung não construirá em Pyeongtaek porque o retorno esperado virou retorno tributado, o engenheiro de IA que aceitou oferta em Singapura ou Taiwan porque lá o esforço dele não vira mesada do vizinho, a startup coreana de modelos de linguagem que morreu no berço porque o capital de risco fugiu para jurisdições onde lucro ainda é tratado como prêmio e não como pecado. O emprego destruído nunca aparece na estatística do programa. O emprego destruído é silencioso por definição.

E quem ganha de verdade com a engenharia? Siga o dinheiro até o fim do corredor, não pare na sala de imprensa. Quem ganha é o burocrata que vai administrar o fundo, o consultor que vai calcular as alíquotas, o tribunal administrativo que vai julgar disputas, o partido que vai colher os votos da distribuição, a ONG que vai fiscalizar a "equidade". A camada intermediária do dividendo come antes do beneficiário final, sempre. O cidadão recebe o resto, agradece a esmola que veio do próprio bolso e ainda vota no candidato que prometeu mais. É um circuito fechado de subsídio à classe política financiado pela inovação que ela própria estrangulará na geração seguinte.

Há ainda a piada cósmica de tratar o "boom da IA" como se fosse poço de petróleo descoberto por acidente embaixo da península coreana. Lucro de Samsung e SK Hynix não é renda mineral, não é dádiva da natureza, não é loteria. É resultado direto de décadas de capital reinvestido, de capacidade industrial preservada contra todas as tentações populistas anteriores, de um ecossistema técnico que custou gerações para ser construído. Tratar isso como bolo a ser fatiado é confundir a galinha com o ovo, e o agricultor com o ladrão. Países que entenderam essa diferença ficaram ricos. Países que não entenderam ficaram com belíssimos programas sociais e nenhuma indústria para sustentá-los.

O mais revelador é o timing. A proposta surge justamente quando o resto do mundo, dos Estados Unidos a Taiwan, corre desesperadamente para atrair capital de IA com isenções, terrenos doados, energia subsidiada e vistos expressos para engenheiros. A Coreia, em vez de competir por esse capital, anuncia que pretende capturá-lo. É como abrir um restaurante na mesma rua de cinco concorrentes e pendurar na porta um cartaz dizendo que cobra a mais para sustentar quem não come. Quando o cliente fugir, vão culpar o mercado, a globalização, a especulação, qualquer coisa menos a placa luminosa que eles mesmos penduraram. A história econômica é monótona nesse ponto: sempre que alguém promete dividir o que ainda nem terminou de ser produzido, o que se divide, no fim, é a miséria.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.