A capital ucraniana acordou novamente debaixo de fogo russo, desta vez precedida por um aviso quase cordial sobre o lançamento do míssil Oreshnik, aquele engenho hipersônico que Moscou apresentou ao mundo no ano passado como se fosse novidade tecnológica e não simplesmente o velho recado imperial: ainda mando aqui, ainda posso destruir o que quiser, e vocês continuam assistindo. O ataque feriu civis, destruiu prédios residenciais, e a imprensa internacional cumpriu seu ritual de manchetes consternadas que ninguém mais lê com atenção porque, convenhamos, a quarta temporada desta série já cansou até os roteiristas.

Olha, tem uma coisa que precisa ser dita sem rodeios. Esta guerra deveria ter terminado há muito tempo, e o motivo de não ter terminado não é militar, é financeiro. Cada míssil russo lançado contra Kyiv corresponde, do outro lado do tabuleiro, a contratos bilionários sendo assinados em Washington, em Berlim, em Bruxelas, alimentando uma máquina de produção bélica que descobriu na carnificina ucraniana o melhor mercado consumidor das últimas três décadas. O dinheiro dos contribuintes europeus e americanos é convertido em projéteis que viram fumaça sobre apartamentos ucranianos, e essa fumaça vira lucro contábil em balanços de empresas que ninguém audita direito.

Me diz uma coisa, quem realmente perdeu se essa guerra acabar amanhã? Os ucranianos comuns, evidentemente, ganhariam. Os russos comuns, idem. Os europeus que pagam energia mais cara desde 2022 agradeceriam. Sobra quem? Sobra a casta que vive disso, e essa casta tem nome, endereço e lobby permanente em parlamento. Quando você vê uma guerra que insiste em não terminar mesmo depois que todos os atores racionais já entenderam que não há vitória militar possível, pode ter certeza: alguém está faturando alto demais para deixar a paz acontecer. Siga o dinheiro e você encontrará a verdadeira razão estratégica.

O Oreshnik, por sua vez, cumpre função simbólica antes da função balística. É o tipo de arma que existe para ser anunciada, mais do que para ser usada. Moscou precisava lembrar ao Ocidente que o cassino nuclear continua aberto, que as fichas estão na mesa, e que se alguém quiser apostar até o limite, o limite é o cogumelo atômico. É chantagem antiga vestida com plástico hipersônico. Funcionou durante a Guerra Fria, funciona agora, e funcionará enquanto governos ocidentais continuarem reagindo com o mesmo coquetel de indignação retórica e cheques generosos para o complexo industrial.

O que ninguém quer enxergar é o óbvio: a Ucrânia está sendo demolida em câmera lenta porque é geopoliticamente mais útil destruída do que próspera. Uma Ucrânia em ruínas justifica orçamentos militares inflados na OTAN, justifica subsídios bilionários a fabricantes de armas, justifica a permanência de estruturas burocráticas internacionais que só fazem sentido enquanto houver inimigo. A vida de cada ucraniano morto é, para certos planejadores em terno bem cortado, simplesmente uma rubrica aceitável no balanço estratégico. E quando se trata de planejar em nome dos outros com o sangue dos outros, a história já demonstrou exaustivamente que burocratas distantes erram quase sempre, e quando acertam, o acerto sai caro demais para quem mora perto do alvo.

Enquanto isso, o cidadão comum, em Kyiv, em Moscou, em Berlim ou em São Paulo, paga a conta de três maneiras simultâneas: com a inflação gerada pela impressão de dinheiro para financiar a guerra, com os impostos que sustentam a maquinaria, e, no caso dos que estão na linha de tiro, com a própria vida. Três formas de extorsão coordenadas, todas legais, todas vendidas como necessidade histórica. E o pior é que, na manhã seguinte ao próximo ataque, a manchete será exatamente a mesma, só mudando o nome do míssil. A paz não interessa a quem prospera com a guerra, e essa é a única lei econômica que jamais foi revogada.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.