A L3Harris anunciou um investimento de um bilhão de dólares para turbinar sua divisão de mísseis, e a manchete foi vendida como notícia de negócios, quando na verdade é notícia de política fiscal travestida de empreendedorismo. Ninguém na L3Harris está arriscando um bilhão do próprio bolso apostando que o mercado consumidor de mísseis hipersônicos vai aquecer no próximo trimestre. O que existe aqui é um compromisso governamental de compra, explícito ou implícito, que transforma a decisão de capital em mera formalidade contábil. Quer dizer, o empresário de verdade aposta o patrimônio num palpite sobre demanda futura; o fornecedor do Pentágono aposta o dinheiro dos outros numa certeza burocrática.
Siga o dinheiro e o teatro fica constrangedor. O contribuinte americano, que já financia o maior orçamento militar da história da humanidade, é o sócio oculto dessa expansão industrial. Ele põe o capital via imposto, põe a demanda via apropriação no Congresso, e ainda aplaude quando o CEO aparece na CNBC falando em criação de empregos. Cria emprego, sim, do mesmo jeito que quebrar vidraças cria emprego para vidraceiro; o que não se vê é o restaurante que não abriu, a escola que não foi construída, a poupança privada que virou ogiva porque o Estado decidiu por você onde seu dinheiro seria mais produtivo.
Há ainda a camada mais cínica, que é a captura regulatória travestida de segurança nacional. Quando três ou quatro conglomerados dominam o setor de defesa, eles não competem por preço, competem por acesso a gabinete. O lobby em Washington gasta mais com jantares do que muita startup gasta com folha de pagamento, e o resultado aparece em relatórios da GAO que ninguém lê, denunciando sobrepreço de trezentos, quatrocentos, às vezes oitocentos por cento em componentes que você compra na Home Depot por vinte dólares. O bilhão anunciado não é investimento competitivo, é reserva de mercado com selo do Tesouro.
E aí entra o ciclo econômico que ninguém quer nomear. O crédito barato produzido pelo Federal Reserve durante quinze anos inflou todos os ativos do planeta, e o complexo militar-industrial foi o primeiro da fila. Expansão monetária artificial não gera riqueza real, gera realocação forçada de capital para setores que o Estado privilegia, em detrimento de setores que o consumidor de fato demandaria se tivesse poder de compra preservado. Traduzindo, o americano médio está mais pobre, a inflação corrói seu salário, e ao mesmo tempo aplaude manchete sobre bilhão destinado a míssil. Estocolmo fiscal em estado puro.
Olha, não se trata de defender pacifismo ingênuo nem de negar que Estado precise de capacidade militar mínima. Trata-se de enxergar que, quando a produção de armas deixa de ser função delegada para virar projeto de expansão corporativa permanente, a lógica se inverte. Não é mais o governo que demanda mísseis porque precisa deles; é a indústria que precisa vender mísseis e, portanto, o governo precisa encontrar motivos para comprá-los. A política externa vira departamento comercial, a diplomacia vira catálogo, e o mundo inteiro paga o preço de conflitos manufaturados para justificar a próxima rodada de contratos.
No fim, o anúncio da L3Harris é menos sobre tecnologia de mísseis e mais sobre a anatomia de um arranjo onde ninguém é responsabilizado por nada. O político que aprovou não paga, o general que pediu não paga, o executivo que lucrou não paga. Paga o sujeito anônimo que trabalha doze horas num galpão da Pensilvânia e acha que imposto é dever cívico. Enquanto houver essa assimetria, o bilhão de hoje vai virar dois amanhã, e depois cinco, e a festa só acaba quando a moeda que banca o banquete finalmente desmoronar sob o peso da própria mentira.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.