O Leerink, casa especializada em saúde, decidiu nesta semana que a agilon health merece um preço-alvo de noventa e dois dólares por ação, contra patamares anteriores bem mais modestos. O motivo da súbita generosidade analítica? A empresa estaria melhorando a gestão de custos médicos, aquela coisa básica de não pagar mais pelo procedimento do que recebe pelo paciente. Quer dizer, descobriram a roda. E a descoberta vale relatório, gráfico, projeção de múltiplos e champanhe na mesa de operações.
Convém lembrar do que estamos falando. A agilon vive dentro do Medicare Advantage, programa em que o governo federal americano transfere recursos do contribuinte para operadoras privadas que prometem cuidar de idosos com mais eficiência do que o Medicare tradicional. Traduzindo, é o modelo em que o Estado entrega o cheque, a empresa entrega o serviço, e o paciente entrega a saúde na esperança de que os incentivos estejam alinhados. Spoiler: raramente estão. O que se viu nos últimos dois anos foi uma sangria de custos médicos no setor inteiro, com utilização explodindo, margens evaporando e ações afundando de oitenta por cento.
Agora vem a parte deliciosa. Quando o subsídio é farto e o cheque chega pontualmente, ninguém se preocupa com custo. Quando o governo aperta o repasse, como o CMS começou a fazer nos últimos ciclos, de repente todo mundo vira gênio da eficiência. A agilon está cortando despesas porque foi obrigada, não porque acordou virtuosa. É o mesmo padrão que se vê em qualquer setor regulado pesadamente: a empresa só se mexe quando o oxigênio do dinheiro alheio começa a escassear. Enquanto o ar fluía, a gestão dormia no ponto.
E aí entra a comédia analítica de Wall Street. O relatório celebra a melhora operacional como se fosse mérito empresarial puro, sem mencionar que o setor inteiro só existe na escala atual porque o contribuinte americano banca a festa via Medicare Advantage. Tira-se o subsídio, some o modelo de negócio. A coisa que se vê é o preço da ação subindo; a coisa que ninguém quer ver é que cada dólar de margem gerado pela agilon passou antes pela folha de pagamento de um trabalhador do Iowa, que assina cheque para Washington sem saber que está capitalizando o múltiplo de uma empresa de Connecticut.
O brasileiro lê isso e pensa que é assunto distante. Não é. O modelo de operadora privada vivendo de transferência pública é exatamente o que se desenha por aqui sempre que se fala em reformar SUS, em saúde suplementar subsidiada, em parcerias público-privadas no setor. A lógica é a mesma e o desfecho é o mesmo: empresa que opera com gordura enquanto o cheque chega, empresa que descobre eficiência só quando ameaçam fechar a torneira, e analistas que celebram a redescoberta da aritmética como se fosse engenharia financeira sofisticada.
O dado relevante não é o preço-alvo. É o que ele revela: que o mercado de saúde americano, glorificado como exemplo de inovação privada, é em larga medida uma extensão terceirizada do Tesouro, e que suas métricas de excelência operacional dependem inteiramente do volume com que o governo abre ou fecha a mangueira. Chamar isso de capitalismo é insultar a palavra. É compadrio com gravata, planilha e código de bolsa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.