A notícia chega embalada naquele papel de presente que Wall Street adora usar, a Leerink mantendo a avaliação das ações da Hims and Hers depois de mais uma aquisição, e o investidor desavisado lê isso como sinal de saúde corporativa. Olha, quando uma corretora reafirma recomendação logo após uma empresa abocanhar concorrente, o que está sendo dito em código é simples, a tese de crescimento agora depende menos de inovação e mais de eliminação de rivais. É a velha receita do capitalismo de compadrio digital, só que vestida de disrupção e empacotada com vocabulário de startup.

Vamos seguir o dinheiro, porque é ali que a história verdadeira sempre mora. A Hims and Hers nasceu prometendo democratizar acesso a tratamentos de saúde masculina e feminina contornando o cartório da indústria farmacêutica tradicional, e durante alguns anos cumpriu parte do prometido. Acontece que toda plataforma que cresce o suficiente acaba descobrindo que é mais barato comprar quem incomoda do que continuar competindo de verdade, e mais lucrativo cultivar uma relação amena com reguladores do que enfrentá-los. O preço-alvo mantido pela corretora não é elogio à gestão, é reconhecimento tácito de que a empresa agora opera num terreno onde a concorrência foi domesticada.

O que ninguém mostra no gráfico bonito do relatório é o que deixou de existir. Cada aquisição dessas significa uma porta que se fechou para o empreendedor que queria entrar no mercado com proposta melhor, significa um laboratório alternativo que não vai mais pressionar margem, significa uma equipe técnica absorvida e diluída dentro da cultura do comprador. O consumidor enxerga apenas a interface polida do aplicativo e o frete grátis da assinatura mensal, não percebe que está pagando, em mensalidades pequenas e perpétuas, o jantar caro de quem fechou o acordo no andar executivo.

E aqui entra a parte que a imprensa de negócios sempre evita, o papel silencioso do regulador. Telessaúde nos Estados Unidos virou um campo onde a permissão para operar em escala depende de uma teia de autorizações estaduais, contratos com seguradoras e compliance farmacêutico que custa milhões só para começar a discutir. Quem pode pagar essa fatura? Exatamente quem já é grande. A regulação que se vende como proteção ao paciente funciona, na prática, como muro de entrada protegendo os incumbentes, e cada fusão aprovada sem questionamento sério é mais um tijolo nesse muro.

Quer dizer, o analista mantém a avaliação porque sabe que o jogo mudou, a empresa não precisa mais convencer o cliente todos os dias, basta administrar a posição dominante que conquistou. É um modelo de negócio que se aproxima, mais do que a propaganda admite, da concessão pública mascarada, você opera porque o Estado tolera, cresce porque comprou os incômodos, e ganha porque o consumidor não tem mais para onde ir sem refazer prescrição, perder histórico e enfrentar fila no consultório físico. A liberdade de escolha vira ficção quando todas as opções pertencem ao mesmo dono.

O capitalismo de verdade exige concorrência feroz, falência permitida, entrada livre e saída sem subsídio. O que se chama hoje de inovação em saúde digital é cada vez mais isso, conglomerado consolidado celebrado por banco de investimento, aplaudido por mídia especializada e financiado por um consumidor que confunde conveniência com benefício. Quando a próxima alta de mensalidade chegar, e ela vai chegar, não diga que ninguém avisou, o relatório da corretora já estava avisando, só não estava escrito numa língua que o assinante entende.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.