A libra esterlina recuou nesta sessão e o dólar americano se estabilizou depois de uma sequência de fraqueza que deixou os operadores mordendo as unhas. É o que a manchete diz, e é o que qualquer terminal da Bloomberg confirma. Mas repare no pequeno detalhe que ninguém quer sublinhar: estamos falando de duas moedas fiduciárias, sem lastro em coisa nenhuma, oscilando conforme o palpite do plantonista do Federal Reserve e o humor matinal do Banco da Inglaterra. Isso não é mercado. Isso é aposta em cassino onde a banca imprime as fichas.

Quer dizer, o que exatamente sobe ou desce quando a libra "recua"? Não é o poder de comprar pão, comprar carne, comprar terra. É a proporção entre dois papéis que valem o que o Estado emissor decide que valem. E o Estado emissor, tanto em Londres quanto em Washington, está atolado em dívida, com déficit fiscal crônico e populações envelhecendo mais rápido do que a produtividade consegue compensar. A libra "fraca" não é acidente meteorológico; é reflexo direto de décadas de gastança financiada com impressora. O dólar "estável" também não é virtude; é apenas o menos ruim numa competição entre condenados.

Olha, o poupador britânico que juntou vinte mil libras num CDB da vida acabou de perder, em poder de compra internacional, o equivalente a uma pequena reforma no banheiro. Ninguém foi lá e tirou o dinheiro da conta dele. Fizeram melhor: mantiveram o número intacto e roubaram o valor por trás do número. É o furto perfeito, porque a vítima nem sabe que foi furtada. Enquanto isso, o banco central publica um relatório trimestral com gráficos coloridos explicando que a inflação é "transitória", que a fraqueza cambial é "conjuntural" e que tudo está sob controle. Sempre está sob controle. Sempre foi.

Siga o dinheiro e você descobre quem ganha com esse balé. Ganha o governo endividado, que paga suas contas em moeda desvalorizada. Ganha o grande banco, que opera com informação privilegiada sobre a próxima reunião de política monetária. Ganha o exportador conectado, que pressiona pelo câmbio favorável nos corredores de Whitehall. Perde o aposentado que recebe em libras e compra remédio importado. Perde o pequeno comerciante que precisa reabastecer estoque. Perde, sobretudo, o cidadão comum, que não tem hedge, não tem offshore, não tem lobby, e que descobre que sua poupança de uma década vale um pouco menos a cada manhã, sem que ninguém tenha votado nisso.

O mais engraçado, se é que dá para rir, é o linguajar dos comentaristas. "A libra recuou após sequência de fraqueza." Como se a moeda tivesse vontade própria, como se fosse um animalzinho tímido que decidiu voltar para a toca. Não recuou nada; foi empurrada pela combinação de juros reais negativos, expectativa de novo afrouxamento monetário e a percepção crescente de que o Reino Unido não tem ideia de como financiar seu Estado inchado sem monetizar mais dívida. O dólar não se estabilizou por mérito; apenas parou de cair porque o Banco Central Europeu resolveu piscar antes. É competição de fraqueza, não demonstração de força.

No fundo, cada relatório desses é uma confissão disfarçada. Confissão de que o padrão monetário atual é uma ficção coletiva sustentada por credibilidade institucional cada vez mais esgarçada. Enquanto o ouro sobe, o bitcoin flerta com máximas históricas e o cidadão médio começa a desconfiar que talvez o problema não seja a moeda dele, mas a moeda inteira, os terminais continuam publicando manchetes sobre "recuo técnico" e "estabilização pontual". É o teatro que se recusa a acabar, porque quando acabar, muita gente importante vai ter que explicar onde foi parar o poder de compra de três gerações. E essa explicação, meu amigo, ninguém quer dar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.