A temporada de balanços fechou com o ritual de sempre. Analistas em terno bem cortado vieram a público anunciar que as empresas "surpreenderam positivamente", que a margem se manteve, que o lucro veio acima do consenso, e que portanto a economia está mais robusta do que se imaginava. É a liturgia trimestral do otimismo financiado. O detalhe que ninguém quer encarar é que resiliência empresarial em meio a juro civilizatório de dois dígitos, endividamento das famílias em níveis recordes e gasto público que cresce mais rápido que qualquer receita produtiva não é sinal de saúde, é sinal de que a morfina continua sendo injetada na veia certa.
Quando se olha por baixo do capô dos balanços, a história muda de tom. Boa parte dos lucros vem de repasse de preço, ou seja, da inflação acumulada que ainda corre nas planilhas, não de ganho real de produtividade. Outra parcela considerável vem de receita financeira, porque empresa grande, com caixa robusto, está literalmente lucrando da Selic alta que sufoca o pequeno empresário endividado do outro lado do balcão. E quando alguma companhia exibe crescimento de receita, vale perguntar quanto disso é venda parcelada em prestações cada vez mais longas para um consumidor que já comprometeu metade da renda com dívida. Isto não é resiliência, é maquiagem contábil de uma economia que respira por aparelhos.
Existe aquela velha lição que todo aprendiz de economia deveria aprender antes de pisar numa mesa de operações: o que se vê é o lucro do trimestre, o que não se vê é o capital que deixou de ser investido em projetos produtivos porque o Tesouro paga mais para não fazer nada. O que se vê é a margem preservada da multinacional listada, o que não se vê é a padaria da esquina que fechou porque não aguentou rolar dívida a juro de cheque especial. O que se vê é o índice na Bolsa, o que não se vê é o pequeno poupador erodido pela inflação que o Banco Central jura controlar enquanto o Tesouro fura a meta com a desfaçatez de quem sabe que o jogo está combinado.
E aí vale seguir o dinheiro, sempre. Quem está ganhando com essa "resiliência"? Bancos, com spread bancário entre os maiores do planeta. Estatais cevadas pelo orçamento. Empresas grandes com acesso privilegiado a crédito subsidiado por bancos públicos. Setores com lobby instalado em Brasília que negociam regime tributário especial enquanto o autônomo, o profissional liberal e o microempresário pagam a conta cheia para sustentar a farra. Capitalismo de compadrio nunca foi capitalismo, foi sempre uma sociedade entre o empresário bem relacionado e o burocrata com poder de assinar canetada. O resto é narrativa para acalmar o gado.
A pergunta honesta, aquela que os relatórios de banco jamais farão porque os autores também precisam continuar empregados, é uma só: por quanto tempo? Por quanto tempo uma economia consegue exibir lucros corporativos resilientes enquanto sua base produtiva se descapitaliza, sua classe média se endivida, sua poupança evapora em inflação e seu Estado consome um terço da riqueza nacional para sustentar uma máquina que serve principalmente a si mesma? A história econômica, aquela que ninguém estuda mais porque é deselegante, responde com clareza monótona: até o dia em que não dá mais. E nesse dia, os mesmos analistas que hoje celebram resultados virão a público explicar, com cara solene, que ninguém poderia ter previsto.
Resiliência sustentada por juro alto, gasto público recorde e endividamento privado não é virtude econômica, é a calmaria estranha que antecede o estouro. Quem comemora balanço trimestral nesse cenário está aplaudindo o passageiro que pulou do prédio porque ele ainda não bateu no chão. A queda parece controlada, até deixar de ser.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.