A derrota histórica do Partido Trabalhista nas eleições locais do Reino Unido não é acidente de percurso, não é "voto de protesto", não é fenômeno passageiro que algum cientista político de gabinete vai explicar amanhã com gráfico colorido. É a fatura chegando. Uma fatura redonda, vencida, com juros, daquela política que durante anos prometeu transformar Londres em utopia escandinava com dinheiro de britânico de classe média e que, surpresa das surpresas, entregou exatamente o oposto: serviço público em frangalhos, imposto sufocando o assalariado, energia mais cara que ouro e uma sensação coletiva de que o país está sendo administrado por gente que despreza quem o construiu.
Olha, é sempre a mesma história, e ninguém aprende. O político sobe ao palanque jurando que vai cuidar do hospital, da escola, do trem, da habitação, do clima, do gênero, do humor das pessoas e da temperatura do chá das cinco. Promete tudo porque sabe que não vai pagar nada, quem paga é o sujeito anônimo que acorda às seis da manhã, pega o tube lotado, trabalha onze horas e vê metade do contracheque sumir antes mesmo de chegar em casa. E quando esse sujeito, depois de anos engolindo sapo, finalmente vai à urna e diz "chega", aparece o comentarista chocado, indignado, perguntando como é possível tamanha "virada à direita". Não houve virada nenhuma. Houve cansaço.
E quem ganhou com a farra trabalhista durante todo esse tempo? Pergunta básica, quase indelicada de tão simples, mas é nela que mora o diagnóstico. Ganhou a casta de consultores que vive de contrato com ministério, ganhou a ONG climática que recebe subsídio para produzir relatório que justifica mais subsídio, ganhou a burocracia do NHS que cresce em folha enquanto a fila de cirurgia cresce no calendário, ganhou o lobby da energia "verde" que vende painel solar caro para iluminar ilha enevoada onde o sol aparece três tardes por ano. Quem perdeu foi o pequeno comerciante esmagado por regulação, o aposentado pagando aquecimento que virou luxo e o jovem que descobriu que comprar casa em Londres é projeto para outra encarnação.
O drama interno do partido agora é tragicômico. Vão trocar de líder, vão fazer convenção, vão contratar pesquisador americano para ensiná-los a "se reconectar com o eleitor da classe trabalhadora", aquele mesmo eleitor que eles passaram quinze anos chamando de atrasado, xenófobo, ignorante e culpado moral por não aplaudir a última agenda importada de algum campus californiano. Quer dizer, primeiro você cospe na cara do operário de Manchester porque ele defende fronteira, família e bandeira; depois se espanta quando ele te manda passear na eleição. É o velho problema de quem confunde missão civilizatória com desprezo de classe disfarçado de progressismo.
Há uma lição mais profunda que ninguém quer enxergar, e ela vale para Londres, para Brasília, para Paris e para qualquer capital do Ocidente que ainda acredite na fada do Estado provedor. A prosperidade não se decreta. Não se imprime, não se redistribui, não se planeja em gabinete iluminado por consultor de Oxford. Ela brota, organicamente, do cidadão livre que pode trabalhar, poupar, empreender, errar, acertar e ser dono do que produz. Cada vez que o Estado avança um centímetro nessa equação, alguma coisa morre do outro lado, e o que morre raramente aparece na manchete; o que aparece é a inauguração da nova secretaria, o novo programa, a nova agência. Mas o que se vê é sempre menos importante que o que se deixa de ver.
Por isso a derrota trabalhista é mais que estatística eleitoral. É sintoma de algo que vem se acumulando há tempo no estômago das nações ocidentais: a percepção tardia de que essa promessa de paraíso administrado por especialista, financiado por imposto e blindado por moralismo é, no fundo, um arranjo de poder. Um arranjo onde uns mandam, outros pagam, e quem reclama vira inimigo da virtude pública. O eleitor britânico acabou de fazer o que cidadão livre tem o direito e o dever de fazer de tempos em tempos: lembrar a quem governa que governar não é reinar. Falta agora ver se alguém em Westminster ainda tem ouvido para escutar, ou se vão preferir, como sempre, culpar o eleitor por não entender o tamanho da própria sorte.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.