A cena é deliciosa para quem aprecia comédia legislativa. A famosa PEC do fim da escala 6×1, vendida como redenção do trabalhador brasileiro, agora tropeça num detalhezinho constrangedor: uma proposta de transição de dez anos enfiada no texto pelo relator, o deputado Leo Prates, e que os próprios líderes da Câmara estão pedindo para retirar. Dez anos. A mesma turma que jurava de pés juntos que reduzir jornada era questão de justiça imediata descobriu, ao abrir a planilha, que justiça imediata custa caro, e que talvez a década inteira até 2036 seja um prazo razoável para empurrar o problema com a barriga. É o populismo encontrando o espelho e não gostando do que vê.

Olha, ninguém precisa ser doutor em economia para entender o que está acontecendo. Quando você impõe por canetada uma redução de carga horária sem mexer em produtividade, em encargos, em CLT engessada, em custo Brasil, você não está dando nada ao trabalhador; está apenas redistribuindo escassez. O empregador, que não imprime dinheiro no quintal, faz uma de três coisas: corta vaga, congela salário ou repassa o custo ao preço final. Adivinha quem paga? O mesmo trabalhador que ia ser beneficiado, agora travestido de consumidor no caixa do supermercado. O que se vê é o feriado a mais; o que não se vê é a vaga que não foi criada, o aumento que não veio, o pequeno comércio que fechou.

E aí entra a parte gostosa, que é seguir o dinheiro e as intenções. Por que dez anos de transição? Porque o político descobriu, depois da foto bonita com o sindicalista, que a conta chega antes da próxima eleição se a coisa entrar em vigor de imediato. Dez anos é o tempo perfeito: longo o bastante para o estrago aparecer no mandato do sucessor do sucessor, e curto o bastante para hoje render manchete de bondade. É o velho truque do legislador que quer ser visto cortando a fita sem nunca ter que assinar o cheque. Os líderes que agora pedem a retirada da transição não estão sendo corajosos; estão apenas percebendo que dez anos escancara demais o teatro, e que talvez seja melhor manter a ambiguidade para vender bondade hoje e empurrar a fatura para a próxima legislatura.

Existe ainda um detalhe que ninguém na comissão especial quer encarar de frente. Jornada de trabalho, no mundo real, é variável que se ajusta por contrato livre entre quem oferece e quem aceita, mediada por produtividade e por concorrência. País rico não trabalha menos porque uma PEC mandou; trabalha menos porque ficou produtivo, capitalizado, tecnológico. Querer importar o resultado sem importar as causas é como querer ficar magro decretando que a balança marque menos. A balança não obedece a decreto, e o mercado de trabalho também não. Mas decretar dá voto, e voto é a única produtividade que o Congresso entende.

O mais revelador é a hipocrisia institucional embutida no episódio. O mesmo Parlamento que se considera apto a redesenhar a vida laboral de cento e tantos milhões de brasileiros precisa de dez anos para se adaptar a si mesmo. Quer dizer, a sabedoria coletiva de empresários, trabalhadores e consumidores precisa obedecer imediatamente, mas a transição da própria lei pode levar uma década inteira. É a velha pretensão fatal do legislador que se imagina arquiteto de uma sociedade que ele mal entende, e que sempre, sem exceção, acaba produzindo um resultado pior do que o arranjo espontâneo que ele se propôs a corrigir.

No fim, o que sobra desse vai e volta na comissão especial é o retrato perfeito do nosso modelo de país: uma classe política que legisla sobre o que não conhece, em nome de quem não consulta, com dinheiro que não é seu, e ainda exige aplauso pela bondade. Retirar a transição de dez anos não vai melhorar a PEC; só vai esconder melhor a bomba. A escala 6×1 não se vence com canetada, vence-se com produtividade, com liberdade contratual, com Estado menor e mercado maior. Mas pedir isso ao Congresso é pedir ao gato que vigie a sardinha.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.