A notícia chegou no domingo com a velocidade de quem estava esperando há muito tempo. Péter Magyar, líder do partido Tisza, venceu as eleições húngaras com 138 dos 199 assentos no parlamento, uma maioria qualificada que poucos esperavam ser tão folgada. Viktor Orbán, que governou a Hungria por 16 anos consecutivos e se tornou o principal símbolo de resistência ao projeto político centralizado de Bruxelas, telefonou para o adversário, reconheceu a derrota e saiu do palco. Até aqui, tudo dentro do jogo democrático. O que merece escrutínio não é o resultado eleitoral, mas a reação imediata e eufórica das autoridades europeias, que diz muito mais sobre os interesses em jogo do que qualquer discurso de vitória.
A presidente da Comissão Europeia declarou que "a Hungria escolheu a Europa" e que "a união fica mais forte". O chanceler alemão enviou suas felicitações. O presidente francês celebrou o "apego do povo húngaro aos valores da União Europeia". O primeiro-ministro britânico chamou de "momento histórico para a democracia europeia". Quando você vê esse nível de entusiasmo coordenado vindo de pessoas que raramente concordam entre si, vale fazer a pergunta que eles gostariam que você não fizesse: o que, exatamente, está sendo comemorado? Porque não é a democracia, cujo mecanismo funciona igualmente bem para eleger Orbán ou Magyar. O que está sendo comemorado é que a Hungria parece estar de volta à linha, de volta ao projeto, de volta à obediência.
Orbán era inconveniente, sem dúvida. Bloqueou repasses de fundos à Ucrânia, resistiu às cotas de imigração, questionou sanções à Rússia, vetou decisões do Conselho Europeu e tratou a soberania húngara como algo que, surpreendentemente, pertence à Hungria. Por isso era odiado em Bruxelas com uma intensidade que nenhuma argumentação técnica justifica, porque a questão nunca foi técnica. Era política. Uma burocracia supranacional não eleita, financiada por contribuintes de 27 países, não tolera que uma peça do tabuleiro aja de forma autônoma. Magyar prometeu "reaproximar a Hungria da Europa", e Bruxelas aplaudiu, porque "reaproximar da Europa" é o eufemismo cortês para "parar de fazer perguntas inconvenientes sobre para onde vai o dinheiro e quem decide o que".
Há um padrão histórico que se repete sempre que um bloco de poder maior absorve um poder menor. Roma fazia isso com os reinos clientes. O Império Britânico fazia isso com seus protetorados. O procedimento raramente envolve canhões, porque canhões custam caro e criam mártires. O método moderno é mais elegante: bloqueia-se o acesso a fundos, isola-se diplomaticamente, amplifica-se a oposição interna com recursos que circulam por canais suficientemente opacos para não deixar rastro inconveniente, e espera-se que o eleitor, cansado da pressão, faça a escolha "certa" por vontade própria. A democracia é preservada na forma. O resultado é garantido no processo. Magyar pode ter chegado ao poder com votos genuínos, fruto de cansaço real com Orbán e promessas legítimas de combate à corrupção. Mas quem celebra a vitória diz muito sobre a que interesses ela atende.
O povo húngaro votou em número recorde, 77% de comparecimento, o que demonstra que a questão mobilizou o país de verdade. Magyar pode ser um político sincero com intenções honestas. Nada disso está em disputa. O que está em disputa é a narrativa de que a vitória dele representa uma "escolha pela Europa", como se a Europa fosse uma entidade abstrata com valores eternos e não um arranjo político-burocrático concreto com interesses financeiros específicos e uma casta de administradores que nunca disputou uma eleição na vida. Quando o cidadão húngaro foi às urnas, ele escolheu entre dois políticos húngaros. A Comissão Europeia não estava na cédula.
Magyar tem pela frente o mesmo dilema que toda liderança de país médio enfrenta ao entrar na órbita de uma potência maior: manter a autonomia suficiente para servir aos que o elegeram ou ceder às pressões do clube que o recebeu de braços abertos. A história tem mais exemplos do segundo caso do que do primeiro. A festa de Bruxelas é informação, não celebração. E toda vez que o establishment festeja uma eleição, o contribuinte prudente confere o bolso antes de se juntar ao brinde.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.