A Life Time Group, gigante das academias premium americanas, realizou sua assembleia anual de acionistas e fez o que toda companhia aberta faz nessa época do ano, elegeu diretores e aprovou propostas com a previsibilidade de uma missa de domingo. O comunicado oficial vem com aquele ar solene de quem acabou de decidir alguma coisa, mas qualquer um que tenha frequentado mais de duas dessas assembleias sabe que o resultado já estava escrito antes de a primeira cadeira ser ocupada. O voto por procuração, instrumento engenhoso que transformou acionista pulverizado em figurante, garante que a administração vigente nunca perca, e que conselheiros indicados pela própria administração sejam reconduzidos com folga de eleição norte-coreana.

Olha, não há nada de ilegal nisso, e é exatamente esse o ponto. O arranjo é legal, é auditado, é fiscalizado, e ainda assim funciona como uma máquina de perpetuação de poder em que o pequeno investidor entra com o dinheiro e os gestores entram com a caneta. Quando a companhia abre o capital, vende-se a ideia romântica de que cada cotista vira sócio, com voz e voto. Na prática, a voz é abafada por camadas de intermediários, e o voto é capturado por fundos que possuem participações cruzadas em meia dúzia de gigantes do mesmo setor e que jamais votarão contra a administração de uma empresa em que também investem por outra porta.

Me diz uma coisa, quem realmente ganha quando uma assembleia dessas aprova um pacote de remuneração executiva de oito ou nove dígitos enquanto o papel oscila lateralmente há trimestres? Não é o sujeito que comprou cinquenta ações achando que estava participando do crescimento de uma rede de bem-estar. É o conselho que negocia consigo mesmo, é o consultor de remuneração contratado pelo próprio executivo para justificar o salário do executivo, é o escritório de advocacia que escreve as propostas e depois aprova sua própria redação. A trilha do dinheiro nunca leva ao acionista pulverizado, leva sempre ao mesmo andar do mesmo prédio em Manhattan ou Chicago.

O modelo Life Time, aliás, é particularmente eloquente sobre o espírito da época. Vende-se saúde como produto de luxo, mensalidade equivalente ao aluguel de um apartamento em cidade do interior, e empacota-se o tudo isso em discurso de comunidade, pertencimento, transformação pessoal. É a estética do bem-estar transformada em commodity financeira, com a mesma engenharia de cativeiro que assinaturas de streaming aperfeiçoaram. O cliente paga por status, a empresa entrega esteira ergométrica, e o acionista recebe relatório trimestral dizendo que tudo vai bem porque a métrica de receita por membro subiu três por cento.

Há uma sabedoria antiga, que a gente esquece de tanto repetir, segundo a qual instituições não se julgam pelo que dizem ser, mas pelo que efetivamente fazem quando ninguém está olhando. Assembleias anuais são exatamente o momento em que todos olham, e por isso mesmo são as menos reveladoras. O que importa de verdade aconteceu nos almoços, nas ligações entre o CEO e os três maiores fundos, nos memorandos internos que jamais virão a público. O ritual de quarta-feira pela manhã com café e biscoito é apenas a confirmação litúrgica de algo que já é dogma.

Enquanto isso, a maquinaria regulatória americana finge fiscalizar, os boletins de governança aplaudem o cumprimento das formalidades, e a próxima geração de MBA aprende em sala de aula que esse arranjo representa o auge da transparência corporativa. É bonito de ver, no sentido em que um teatro bem ensaiado é bonito de ver. O problema começa quando a plateia esquece que está num teatro e passa a confundir o palco com o mundo real.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.