Saiu mais um romance histórico canonizando o burocrata que, em pleno século passado, convenceu meio mundo de que o caminho para a prosperidade era confiar a sujeitos de gravata a tarefa de fabricar moeda do nada. O livro pinta o personagem como gênio salvador da civilização ocidental, articulador de tramas financeiras durante a guerra, herói intelectual de cartola e bengala. A literatura agradece, o leitor desavisado aplaude, e a conta continua chegando para o pagador de impostos, oitenta anos depois, em forma de inflação crônica, dívida pública impagável e classe média espremida até a última gota.

Quer dizer, é curioso como toda vez que um intelectual proclama ter descoberto a fórmula mágica do crescimento sem esforço, o resultado prático envolve confisco silencioso da poupança alheia. A tese central daquela escola é singela: gaste o que não tem, imprima o que não vale, e chame o estrago de estímulo. Funciona maravilhosamente nos primeiros capítulos. O dinheiro novo entra na economia pelas mãos certas, infla preços de ativos, enriquece quem está perto da torneira, e gera a ilusão de bonança. Quando a bolha estoura, e ela sempre estoura, a culpa é do mercado, do clima, do vírus, do vizinho. Nunca do impressor.

Olha, a história econômica do último século não é mistério para quem se dá ao trabalho de abrir um livro de dados em vez de um romance ilustrado. Cada experimento monetário inspirado naquele receituário terminou no mesmo lugar: moeda destruída, capital mal alocado, indústrias zumbis sustentadas por crédito subsidiado, famílias forçadas a apostar na bolsa porque o juro real é negativo e a poupança virou ferramenta de empobrecimento programado. O Brasil conhece esse filme em cores vivas, da Era Vargas à pedalada fiscal, do cruzado ao real cambaleante. Toda vez que o palácio promete crescimento por decreto, o açougueiro descobre que a carne subiu de novo na semana seguinte.

Me diz uma coisa, quem ganha de verdade quando o Banco Central decide salvar o mundo com liquidez? Não é o aposentado que viu sua reserva derreter. Não é o pequeno empresário que paga juros de cartão de crédito para girar o capital. Não é o trabalhador que recebe o salário no dia primeiro e descobre no dia quinze que o poder de compra evaporou. Quem ganha é o conglomerado financeiro que tem assento na mesa, o empreiteiro que financia campanha, o exportador subsidiado, o banco grande demais para quebrar. Siga o rastro do dinheiro novo e descobrirá sempre os mesmos sobrenomes, os mesmos endereços, as mesmas portas giratórias entre ministério e diretoria.

O mais grotesco é a moldura moral em que a operação se apresenta. Não é roubo, é política pública. Não é confisco, é estímulo. Não é privilégio, é desenvolvimento. A linguagem técnica serve para anestesiar a vítima enquanto o bolso é virado do avesso. Romances como esse cumprem função semelhante, vestem de heroísmo o que, em qualquer época anterior, seria reconhecido como falsificação de moeda, crime contra o qual reinos inteiros enforcavam culpados na praça pública. Hoje damos prêmio Nobel, cadeira em universidade de ponta e capítulo elogioso em ficção best-seller.

A verdade que nenhuma narrativa romanceada consegue apagar é que riqueza nasce de poupança, trabalho, capital acumulado e troca voluntária. Nunca nasceu, nunca nascerá, de homem com caneta decidindo quanto dinheiro o mundo precisa ter amanhã de manhã. Quem acredita no contrário está comprando ingresso para o próximo colapso, e ainda agradecendo o vendedor pela gentileza.

Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.