Noventa e dois milhões de dólares. Não é o orçamento de um filme de Hollywood, não é a fortuna acumulada por um empresário em décadas de risco, não é o resultado de uma empresa que convenceu clientes a escolhê-la livremente. É um contrato assinado entre o governo americano e a Lockheed Martin, empresa que já havia embolsado, só nas últimas semanas, um acordo de US$ 4,76 bilhões para produção acelerada de mísseis Patriot PAC-3, além de um framework para quadruplicar a capacidade de produção dos interceptores THAAD. Em linguagem direta: quando o assunto é armamento, o contribuinte americano está sempre aberto.

Siga o dinheiro. A Lockheed Martin não vende para você, não vende para mim, não disputa cliente no varejo. Ela vende para um único comprador que não usa dinheiro próprio e que nunca vai à falência porque financia seus gastos com tributação compulsória. Chama-se monopsônio: mercado com um só comprador, e esse comprador chama-se Estado. Num mercado assim, o fornecedor não precisa ser eficiente, não precisa ser barato, não precisa inovar para sobreviver. Precisa apenas de bons lobistas em Washington, contratos bem redigidos e um governo que nunca encontra motivo para cortar gastos militares, mesmo quando encontra motivo para cortar tudo o mais.

E o governo sempre encontra o motivo certo. Quando não é a Rússia, é a China. Quando não é a China, é o Irã. Quando não é o Irã, é um grupo sem Estado com fuzis kalashnikov numa região que poucos americanos sabem situar no mapa. A ameaça muda de nome, o contrato não muda de destinatário. A Lockheed existe há décadas, atravessou o fim da Guerra Fria, o 11 de setembro, o Afeganistão, o Iraque, a Síria, a Ucrânia, cada ciclo com orçamento maior que o anterior. Há algo de notável nisso, não tanto como conquista empresarial, mas como obra-prima de captura institucional. A empresa não produz paz, não produz prosperidade, não produz nada que o cidadão médio possa usar. Produz instrumentos de destruição, comprados com dinheiro público, para guerras decididas por políticos que raramente enviam seus filhos ao campo de batalha.

O mais irônico é o argumento da defesa nacional, usado sempre que alguém ouse questionar os números. Defesa nacional, dizem, é bem público, justifica gasto obrigatório, não pode ser submetida ao capricho do mercado. Mas repare: quando se trata de escola, dizem que o Estado deve gerir porque é bem público demais para o mercado. Quando se trata de hospital, idem. Quando se trata de aposentadoria, idem. O argumento do bem público serve para justificar qualquer expansão do gasto estatal, e a indústria militar aprendeu a usá-lo melhor do que ninguém, embrulhando lucros privados em linguagem de sacrifício patriótico. Noventa e dois milhões aqui. Quatro vírgula sete bilhões ali. Tudo pelo bem da liberdade.

Não existe almoço grátis, e não existe míssil grátis. Cada dólar que sai do Tesouro americano em direção à Lockheed é um dólar que saiu antes do bolso de algum trabalhador em Indiana, de algum pequeno empresário em Ohio, de alguma família que pagou imposto sem saber exatamente para onde ia. O Estado não cria riqueza, redistribui riqueza, e nesta redistribuição específica, os que recebem têm nome, endereço em Bethesda, Maryland, e ações negociadas na bolsa. Os que pagam têm nomes anônimos e não ganham absolutamente nada em troca, a não ser a promessa abstrata de segurança num mundo que o próprio aparato militar frequentemente ajuda a tornar menos seguro. O negócio mais seguro do mundo não é petróleo, não é tecnologia, não é farmacêutico. É ser o fornecedor exclusivo de um comprador que nunca vai à falência e que sempre encontra uma nova razão para comprar mais.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.