O Peru foi às urnas neste domingo e os primeiros resultados oficiais da ONPE colocam Rafael López Aliaga na frente do pelotão, numa eleição fragmentada entre mais de vinte candidatos sem nenhum capaz de cruzar os cinquenta por cento e encerrar o assunto de vez. A imprensa progressista, naturalmente, já reservou o adjetivo: "ultradireita". É sempre assim. Quando alguém defende que a propriedade privada não é uma concessão generosa do governo mas um direito que antecede qualquer constituição, é perigoso. Quando quer que a polícia prenda bandido em vez de proteger esquema, é fascista. Quando insiste que imposto alto não é solidariedade mas confisco racionalizado, é extremista. O Peru pode estar prestes a eleger um presidente perigoso. Deus queira que sim.

Convém lembrar o que o Peru conhece de governo "moderado" e "equilibrado". O país passou por Velasco Alvarado, que nos anos setenta estatizou tudo o que se movia, desapropriou fazendas, destruiu a agricultura e entregou o país ao FMI de joelhos. Passou por Fujimori, que chegou prometendo liberalismo e governou por decreto. Passou por Humala, Kuczynski, Vizcarra, Sagasti, Castillo, Boluarte, cada nome um capítulo da mesma história: o Estado que promete ordenar a economia e entrega caos, inflação, corrupção e dependência. Nesse histórico, chamar de extremista alguém que quer reduzir o aparato estatal é como chamar de radical o médico que quer parar de envenenar o paciente. A moderação peruana produziu pobreza com metodologia.

López Aliaga construiu fortuna no setor ferroviário e hoteleiro antes de vencer a prefeitura de Lima em 2022 com mais de vinte e seis por cento dos votos e renunciar ao cargo no ano passado para disputar a presidência. Isso é relevante, não porque riqueza seja virtude automática, mas porque existe uma diferença estrutural entre quem acumula produzindo e quem acumula extraindo. A maioria dos políticos latino-americanos pertence à segunda categoria: constroem carreiras dentro do Estado ou à sombra de contratos públicos, dependem do orçamento como o parasita depende do hospedeiro. Aliaga construiu fora dessa lógica, e isso o torna incômodo para o sistema. O sistema, como sempre, responde com a palavra que usa para afastar qualquer ameaça real: extremismo. Siga o dinheiro. Pergunte quem tem mais a perder com um governo que corta despesas, fecha torneiras e exige resultado. A resposta explica quem financia a narrativa contra ele.

O fracionamento do voto é o espelho de uma doença que assola toda a América Latina. O campo progressista distribui intenções de voto entre uma dúzia de candidatos que prometem variações do mesmo cardápio, enquanto o eleitorado que quer menos Estado e mais ordem tende a se concentrar. O resultado são os boca de urna que mostram Keiko Fujimori na frente com pouco mais de dezesseis por cento, num campo de vinte candidatos onde nenhum chega perto da maioria. O segundo turno é certo. E aí o jogo muda completamente, porque a pergunta deixa de ser "qual candidato prefiro" e passa a ser "qual modelo de país escolho". Essa pergunta, historicamente, favorece quem tem proposta mais clara. Entre "mais Estado" e "menos Estado", pelo menos um dos lados sabe o que quer.

Um segundo turno entre López Aliaga e Keiko Fujimori, que os resultados parciais desenham como provável, será descrito pela imprensa como "escolha entre dois extremos". Não acredite. É a escolha entre dois candidatos que, cada um à sua maneira, reconhecem que o modelo vigente não funciona. Fujimori carrega o peso do sobrenome e do presídio na memória coletiva. Aliaga carrega o peso de ser honesto demais sobre o que precisa ser feito. Em eleições, raramente o mais direto vence o primeiro turno, mas o segundo turno tem outra lógica: menos dispersão, mais decisão, e o eleitorado que ficou esperando o nome certo no primeiro turno começa a votar contra o que mais teme.

O que o Peru decide neste ciclo vai além de um nome no palácio de Pizarro. Decide se o caminho é a enésima rodada de promessas redistributivas que terminam em dívida, desemprego e fuga de capital, ou se há vontade real de construir instituições que respeitem o produtor, punam o predador e deixem o mercado respirar. Um país que nunca aprendeu a diferença entre riqueza criada e riqueza confiscada vai continuar cometendo os mesmos erros com entusiasmo renovado a cada eleição. O Peru merece melhor. Resta saber se vai querer.

Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.