A cena se repete todo ano com precisão suíça. Executivos da L'Oréal sobem ao palco de uma conferência organizada por um banco de investimento inglês, mostram slides com setas subindo, falam em "vantagem competitiva sustentável" e "posicionamento premium", e os analistas de terno anotam tudo como se estivessem recebendo a revelação divina do trimestre. Ninguém pergunta o óbvio. Ninguém quer perguntar. O jogo é justamente esse, todo mundo fingindo que ali se produz análise quando o que se produz é narrativa coordenada para sustentar múltiplo de ação.

Vantagem de crescimento é uma expressão bonita para dizer que a empresa vai continuar aumentando preço acima da inflação enquanto o poder de compra da classe média europeia derrete no ritmo dos aumentos de energia e imposto. O truque é elegante. Você chama de "premiumização" o fato de que o mesmo hidratante que custava vinte euros agora custa trinta e dois, e o consumidor que antes comprava dois passa a comprar um, mas a receita nominal sobe e o slide fica lindo. É a alquimia moderna, transformar empobrecimento em métrica de sucesso corporativo.

E os bancos adoram esse discurso porque ganham dos dois lados da mesa. Vendem a análise para o investidor institucional, cobram taxa de administração do fundo que compra a ação, faturam corretagem quando o preço sobe, faturam de novo quando cai, organizam a conferência onde a empresa se promove, cobram da empresa pela hospedagem do evento, e ainda emitem relatório dizendo que o papel está atrativo. É um ecossistema fechado onde o único que não senta na mesa é justamente quem financia tudo, o poupador que colocou dinheiro no fundo de pensão achando que estava comprando segurança para a aposentadoria.

O consumidor de cosmético, esse então, virou variável de ajuste. Enquanto a apresentação fala em expansão na Ásia e resiliência da categoria de luxo, o supermercado europeu registra queda de volume em quase todas as linhas de higiene pessoal de marca. A resposta corporativa é sempre a mesma, empurrar reposicionamento, cortar SKU de baixa margem, apertar fornecedor pequeno, e chamar isso de "otimização de portfólio". Traduzindo do dialeto do MBA para o português da vida real, significa que menos gente vai ter acesso ao produto e quem tiver vai pagar mais. Ponto.

Há uma ironia que ninguém no palco menciona. A mesma indústria que se apresenta como símbolo de sofisticação e inovação depende umbilicalmente de política monetária frouxa, subsídio energético estatal, acordo comercial protegido e regulação que dificulta a vida do concorrente médio. Retire o banco central inflando ativo, retire a Comissão Europeia protegendo campeão nacional, retire o dinheiro barato que financia recompra de ação, e a tal "vantagem de crescimento" vira o que sempre foi, resultado engenharia financeira dentro de arranjo político. O produto até é bom. O discurso é que é ficção.

Enquanto isso, a coluna do investidor pequeno lê no jornal que a empresa está bem, o gestor do fundo mostra performance relativa favorável, o banco fatura, o executivo recebe bônus atrelado ao preço da ação, e a conta final chega no bolso de quem trabalha para consumir o produto ou de quem poupou a vida inteira acreditando na fábula do capitalismo de conferência. Toda essa coreografia tem um nome antigo e conhecido, e não é livre mercado. Livre mercado é o cara da esquina abrindo loja concorrente, coisa que virou quase ilegal na Europa atual.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.