A BRP Inc, dona das marcas Ski-Doo, Sea-Doo, Can-Am e Lynx, fechou o trimestre com lucro ajustado de US$ 1,01 por ação, superando as projeções dos analistas, e receita também acima do consenso de mercado. Quem acompanha o setor de veículos recreativos sabe o que isso significa: num ambiente de juros altos no Canadá, consumidor pressionado e cadeia logística ainda cicatrizando das pancadas pandêmicas, uma empresa que vende brinquedo caro para adulto adulto conseguiu vender mais e melhor. Não porque o governo decretou que motoneve é prioridade nacional, mas porque alguém em Valcourt, no Quebec, acordou cedo para descobrir o que o cliente queria pagar.
Olha, o detalhe que a manchete esconde é justamente o mais interessante. Lucro por ação acima das projeções, num setor classificado como "discricionário", num momento em que metade dos economistas de banco passa o dia anunciando recessão iminente para justificar o próximo pacote de estímulo. Quer dizer, enquanto os doutores do consenso pediam intervenção, milhares de consumidores reais, com dinheiro real, decidiam comprar produto real. O mercado, esse organismo que ninguém projetou e ninguém comanda, continuou fazendo o que sempre fez: agregando milhões de decisões individuais num sinal coerente que nenhum comitê de planejamento seria capaz de reproduzir nem com supercomputador.
Vale seguir o dinheiro. A BRP não nasceu de subsídio federal, não vive de incentivo regional do BNDES canadense, não depende de tarifa protecionista para sobreviver. Saiu de uma cisão da Bombardier nos anos 2000, foi para a bolsa, sofreu, cortou custo, errou, acertou, comprou concorrente, vendeu divisão, e está aí entregando margem operacional decente num produto de nicho. Compare com qualquer "campeã nacional" inflada por banco estatal nos últimos vinte anos e o contraste é didático. Uma faz dinheiro vendendo para quem quer comprar. A outra faz prejuízo vendendo para quem o contribuinte foi obrigado a financiar. Adivinhe qual das duas sobrevive ao primeiro ciclo de juros altos.
Me diz uma coisa: por que a imprensa econômica trata resultado de empresa privada bem-sucedida como notícia técnica menor, enterrada na seção de mercados, enquanto qualquer anúncio de "pacote" ministerial ganha capa e editorial elogioso? Porque a primeira história não cabe na narrativa. Empresa que dá lucro sem precisar do Estado é prova viva de que a tese central do intervencionismo, a de que ninguém se vira sozinho, é falsa. E nada incomoda mais o palaciano do que o sujeito que prospera ignorando o palácio. Por isso o lucro privado é descrito sempre com aquele tom de suspeita, enquanto o subsídio público vem embrulhado em retórica de "desenvolvimento".
Há também o que não se vê neste balanço. Cada Ski-Doo vendido é uma cadeia de fornecedores pagando salário, é imposto recolhido sem que ninguém precise inventar nova CSLL temporária, é poupança transformada em capital produtivo via bolsa, é dividendo distribuído a fundo de pensão que sustenta aposentado que nunca ouviu falar de Quebec. Tudo isso acontece em silêncio, sem coletiva de imprensa, sem ministro batendo no peito. O barulho fica reservado para quando o governo "cria" emprego com dinheiro que tomou de alguém que estava criando emprego sozinho. A diferença entre as duas riquezas, a fabricada e a anunciada, é a diferença entre construir e teatralizar.
O recado do trimestre da BRP, portanto, não é sobre motoneve. É sobre o método. Onde o capital é privado, o risco é do dono, o preço é livre e o consumidor decide, aparece resultado. Onde o capital é alheio, o risco é socializado, o preço é tabelado e o consumidor é tutelado, aparece déficit eterno disfarçado de política pública. Não é ideologia, é aritmética. E aritmética, ao contrário de promessa de campanha, sempre fecha a conta no fim do trimestre.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.