A Credicorp, holding que controla o maior banco do Peru, divulgou resultado trimestral com lucro por ação quarenta centavos acima das estimativas, enquanto a receita veio abaixo do consenso, e o mercado fez o que sempre faz nessas horas: aplaudiu o lucro e fingiu não ver a receita. Quer dizer, vende menos e ganha mais. Em qualquer setor competitivo isso seria sinal de alarme, eficiência miraculosa ou redução de custos heroica. Em banco latino-americano, é rotina contábil. É o spread fazendo o trabalho que o crescimento deveria fazer.

Olha, a equação é simples e ninguém na imprensa financeira tem coragem de soletrar. Quando um banco lucra mais sem vender mais, ou ele cortou despesa, ou ele apertou a margem em cima de quem pega crédito. No caso peruano, com taxa básica ainda salgada e inadimplência sob controle administrado, a resposta está no segundo termo. Quem paga a conta do bônus do executivo de Lima é o pequeno comerciante de Arequipa que financia o estoque a juros que envergonhariam um agiota napolitano do século dezessete. E o sistema chama isso de saúde do setor financeiro.

Me diz uma coisa: por que o setor bancário latino-americano consegue, década após década, entregar retorno sobre patrimônio que nenhuma indústria real consegue sonhar? Não é por genialidade dos gestores, não é por inovação tecnológica, não é por produtividade. É porque a entrada no clube é controlada pelo banco central, a concorrência é simbólica, o compulsório protege os incumbentes, e a regulação prudencial funciona como muralha contra qualquer fintech que ouse aparecer com proposta séria. Cartel chancelado por lei tem nome técnico bonito, chama-se sistema financeiro nacional.

E há a parte que ninguém mostra no release, aquela que fica fora do slide do investidor. Cada ponto de spread cobrado a mais é um projeto produtivo que não nasceu, uma máquina que não foi comprada, um emprego que não foi criado. O lucro visível da Credicorp é a fotografia. A invisível é a economia peruana operando abaixo do potencial porque o capital, em vez de circular, fica empoçado financiando dívida pública e crédito caro. O que se vê é o EPS batendo estimativa. O que não se vê é o continente inteiro definhando em produtividade enquanto seus bancos engordam.

Há ainda o detalhe geopolítico que o relatório esconde sob jargão de risco soberano. O Peru vive instabilidade política crônica, presidente cai com a frequência com que turista troca de hotel, e mesmo assim o banco lucra. Por quê? Porque banco grande em país instável é o porto seguro do próprio caos. Quanto pior o ambiente, maior o prêmio de risco, maior o spread, maior o lucro. A instituição aposta contra a estabilidade do país de origem e vence todas as vezes. É um modelo de negócio que só funciona em terra onde a moeda é frágil, o Judiciário é lento e o regulador é capturado. Coincidência? Não existe coincidência em economia, existe incentivo.

Então, quando o terminal Bloomberg piscar verde celebrando que a Credicorp bateu o consenso, lembre que consenso de analista é o último lugar onde se encontra verdade econômica. O lucro existe, é real, está auditado. A pergunta que ninguém faz é de onde ele veio. E a resposta, sempre a mesma desde que o primeiro banqueiro veneziano descobriu que emprestar a juro composto era melhor que comerciar especiarias, é que ele veio do bolso de quem não tinha alternativa. Banco em mercado livre seria utilidade pública lucrativa. Banco em mercado capturado é pedágio com fachada de prestador de serviço.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.