A Essent Group entregou números acima do consenso, lucro por ação superior em treze centavos e receita que passou da régua dos analistas, e o ritual de sempre se repete: manchete entusiasmada, ações em alta, gestores sorrindo na teleconferência. Acontece que a Essent não vende sapato nem software. Ela vende seguro de hipoteca residencial, ou seja, aposta na premissa de que americanos vão continuar honrando financiamentos imobiliários que só existem na escala atual porque o banco central transformou a casa própria americana num ativo financeiro turbinado por uma década e meia de juros artificialmente baixos seguida agora por taxas que esmagam quem comprou no topo.

Quer dizer, o que a empresa de fato faz é precificar risco de inadimplência num mercado cuja precificação foi sequestrada pelo Federal Reserve. Quando o juro é manipulado, o preço do imóvel é manipulado, o seguro sobre o imóvel é manipulado, e o lucro de quem vende esse seguro é manipulado em cascata. Celebrar trimestre forte da Essent sem olhar para a fonte do rio é como elogiar a beleza de uma plantação que cresce em solo envenenado: dá frutos, sim, até o dia em que não dá mais.

Me diz uma coisa, quem ganha quando o seguro hipotecário prospera? Os acionistas, certamente. Os executivos com bônus atrelados a metas, sem dúvida. E os bancos comerciais, que conseguem empurrar empréstimos cada vez mais agressivos sabendo que o risco está terceirizado para empresas como a Essent, que por sua vez estão protegidas implicitamente pela certeza de que, se a coisa azedar feio, o contribuinte americano vai socorrer o sistema como socorreu em 2008. Privatização do lucro, socialização do prejuízo, rito antigo travestido de capitalismo.

O detalhe que escapa do release é o que não aparece no balanço. Aparece o lucro. Não aparece o jovem casal que adiou o casamento porque o financiamento ficou impagável. Não aparece o aposentado cuja poupança foi corroída pela inflação que financiou esse mesmo crédito barato dos anos anteriores. Não aparece o pequeno construtor que quebrou porque os juros subiram do dia para a noite quando o Fed percebeu que tinha exagerado na dose. Esses custos existem, são reais, e estão espalhados por milhões de famílias que ninguém entrevista na CNBC.

Há ainda a questão da própria existência regulatória do setor. Seguro hipotecário privado nos Estados Unidos cresceu como cresceu porque o governo, via Fannie Mae e Freddie Mac, exige cobertura para empréstimos com entrada baixa. Ou seja, o mercado da Essent é em boa medida uma criatura do desenho regulatório federal, não fruto de demanda espontânea de consumidores conscientes contratando proteção voluntária. É capitalismo de compadrio em sua forma mais sofisticada, aquela em que o lobby é tão antigo que ninguém mais lembra que o arranjo foi construído, parece natureza.

Por isso o trimestre brilhante diz menos sobre a competência da gestão e mais sobre o estado do paciente. A Essent vai bem porque o sistema imobiliário americano ainda não desabou, e ainda não desabou porque o Fed continua manobrando entre apertar para conter inflação e afrouxar para não derrubar o castelo de cartas que ele mesmo construiu. No dia em que essa equação não fechar, e ela não fecha para sempre, o lucro de hoje será reanalisado como o último ato antes do intervalo. Aplaudir agora é direito do acionista. Acreditar que isso é mérito é ingenuidade que custa caro.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.