O número saiu, o sino tocou, os terminais piscaram em verde e os analistas que erraram por sete centavos para baixo agora aparecem na televisão explicando, com cara de quem entendeu tudo, por que a Fidelity National Information Services entregou mais do que esperavam. Quer dizer, eles próprios definiram o esperado. Erraram. E o erro virou manchete de lucro. É o teatro mais bem ensaiado de Wall Street, repetido a cada noventa dias com a pontualidade de quem sabe que ninguém está prestando atenção no roteiro, só nos fogos de artifício.
Vale lembrar o que essa empresa faz antes de comemorar. A FIS é uma das três grandes processadoras de pagamentos e tecnologia bancária do planeta, ao lado de Fiserv e Jack Henry, formando um oligopólio confortável que sustenta a infraestrutura de cartão, conta corrente e compensação de boa parte dos bancos americanos e de meio mundo. Quando uma empresa desse porte "supera projeções", não está vencendo concorrência, está colhendo aluguel de uma posição construída ao longo de décadas em um mercado onde trocar de fornecedor custa tanto que ninguém troca. Lucro de monopolista regulado disfarçado de proeza empresarial.
Olha, o detalhe que o release não conta é interessante. A receita de processamento de pagamentos digitais cresce porque o dinheiro físico está sendo asfixiado por decreto, por regulação, por incentivo fiscal e pela conveniência cuidadosamente engenheirada de um sistema onde cada transação sua deixa um rastro, uma taxa e um centavo no bolso de alguém. Esse alguém, em parte considerável, é a FIS. Cada vez que um banco central fala em moeda digital, em fim do dinheiro vivo, em "modernização do sistema de pagamentos", a ação dessas processadoras sobe antes da próxima reunião do FOMC. Coincidência que se repete não é coincidência, é arranjo.
Há também o capítulo do recompra de ações, que ninguém quer discutir porque estraga a festa. Boa parte do crescimento do lucro por ação dessas gigantes financeiras nos últimos anos não vem de mais clientes, mais produtos ou mais inovação, vem de engenharia financeira pura: a empresa pega caixa, recompra os próprios papéis, reduz o denominador da equação e o EPS sobe sozinho, sem que ninguém precise vender um único contrato a mais. É contabilidade criativa que seria escândalo em qualquer padaria de bairro, mas em Manhattan vira "alocação eficiente de capital".
E aí entra a pergunta que o noticiário econômico se recusa a fazer. Se essa indústria opera em mercado verdadeiramente livre, por que três empresas concentram quase tudo? Por que os bancos pequenos não conseguem montar suas próprias soluções? Por que cada nova regra de compliance, cada novo padrão técnico exigido pelo regulador, cai como mão de luva no colo desses incumbentes e como machado nas costas de qualquer entrante? A resposta é desagradável, e por isso é silenciada: a regulação financeira americana, vendida como proteção ao consumidor, é o cimento que mantém o oligopólio de pé. O contribuinte pagou para construir as muralhas, e os senhores feudais cobram pedágio para todo mundo passar.
Sete centavos acima da estimativa, portanto, não dizem absolutamente nada sobre eficiência, talento ou criação de valor. Dizem apenas que o pedágio continua sendo cobrado, que ninguém ousa contestar a posição da fortaleza, e que os analistas que cobrem o setor sabem exatamente o quanto subestimar para que a manchete do trimestre seja sempre positiva. O verdadeiro lucro dessa história não está no balanço da FIS, está na narrativa de prosperidade que sustenta todo o castelo de cartas. Quando o vento mudar, e ele sempre muda, o sete vai virar setenta no sentido contrário, e os mesmos terminais piscarão em vermelho com a mesma certeza com que piscam em verde hoje.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.