Enquanto o noticiário econômico brasileiro discute mais um pacote, mais um arcabouço e mais uma "medida estrutural" que ninguém entende, uma fabricante de peças aeronáuticas chamada Heico anuncia que superou as projeções em US$ 0,33 por ação e que a receita também passou por cima das estimativas dos analistas. Lucro de US$ 1,11 contra US$ 0,78 esperados. Trinta e três centavos a mais por ação. Parece pouco. Não é. É a diferença entre uma empresa que opera num ambiente onde produzir ainda compensa e outra que precisaria explicar para um secretário qualquer por que ousou crescer sem licença prévia.
Heico não fabrica narrativa, fabrica componente para avião. Não pede subsídio, não vive de BNDES, não tem ministro para chamar de padrinho. Cresce porque encontrou um nicho específico, peças de reposição certificadas para aviação comercial, e atacou esse nicho com obsessão durante décadas. É o tipo de empresa que não faz manchete porque não dá escândalo, não quebra, não pede socorro e não convoca coletiva para anunciar parceria estratégica com o governo. Faz a coisa mais subversiva que existe no capitalismo contemporâneo, entrega o que prometeu, no prazo, com margem.
Repare no contraste, porque ele é a aula que ninguém quer dar nas faculdades de economia. De um lado, uma empresa de capital aberto que responde a acionistas, a clientes exigentes e a uma agência reguladora aeronáutica que não brinca em serviço, a FAA. De outro, o ecossistema das "campeãs nacionais" tupiniquins, que crescem na proporção direta do crédito subsidiado que recebem e murcham na mesma proporção quando a teta seca. A Heico precisou competir. As nossas precisaram apenas de telefone vermelho. Adivinhe qual modelo entrega resultado trimestre após trimestre.
Siga o dinheiro, que a coisa fica mais interessante. Boa parte das peças que a Heico vende substitui originais de fabricantes gigantes a preços menores, com a mesma certificação. Ou seja, é concorrência pura, daquela que o cartel da fabricante original adoraria sufocar com lobby regulatório se pudesse. Que não conseguiu, até agora, é o que explica o lucro acima da expectativa. Cada centavo desses trinta e três representa um consumidor de companhia aérea pagando menos e um burocrata frustrado por não ter conseguido capturar a regra a tempo.
O mercado, esse organismo que tantos querem domesticar com planilha, reagiu como reage sempre que ninguém atrapalha. Ações em alta no pré-mercado, analistas refazendo modelo, gestores reequilibrando carteira. Não houve reunião do Copom, não houve decreto presidencial, não houve "comitê de retomada". Houve uma empresa que entregou, milhões de pessoas processando essa informação simultaneamente via preço, e capital sendo realocado em segundos para onde rende mais. É a coisa mais sofisticada que a espécie humana já produziu, e funciona melhor quando os iluminados ficam fora da sala.
A lição, para quem ainda quiser aprender, é simples e por isso mesmo insuportável. Riqueza não se decreta, se produz. Lucro acima da expectativa não é "ganância", é sinal de que a empresa acertou onde os concorrentes erraram. E nenhum plano quinquenal, arcabouço fiscal ou nova âncora cambial vai produzir num país inteiro o que uma única fabricante de peças produz quando a deixam trabalhar. Trinta e três centavos por ação valem mais do que mil discursos sobre desenvolvimento.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.