A Heico, fabricante de componentes para aviação e defesa, divulgou trimestre que bateu o consenso dos analistas em US$ 0,33 por ação, com receita também acima do projetado. Não houve socorro do Tesouro americano, não houve BNDES disfarçado, não houve fundo soberano fingindo ser investidor anjo. Houve, simplesmente, uma empresa fazendo aquilo que empresa deveria fazer: produzir peça que voa, vender por preço que o cliente aceita pagar, e devolver lucro ao acionista que confiou capital. Coisa rara num planeta onde metade dos balanços corporativos hoje parece relatório de ONG pedindo subvenção.
Repare no detalhe que a imprensa econômica brasileira raramente sublinha. A Heico atua num setor que, em tese, é o sonho úmido do estatismo: aeroespacial, defesa, alta tecnologia, cadeia longa, ciclo de capital pesado. É o tipo de indústria que, traduzida para a gramática de Brasília, viraria automaticamente "setor estratégico que merece política industrial". Pois bem, a empresa cresce, lucra e bate consenso justamente porque está num mercado onde quem erra preço perde contrato para o concorrente, não para o protocolo. Onde o cliente pode trocar de fornecedor sem precisar de autorização ministerial.
Aqui mora a lição que os engenheiros sociais nunca aprendem. O preço, quando livre, comunica em tempo real aquilo que nenhum comitê de planejamento consegue calcular nem com mil planilhas. Diz ao empresário onde investir, ao trabalhador onde se qualificar, ao acionista onde alocar poupança. Quando o ganho aparece, é porque milhões de decisões dispersas convergiram corretamente. O lucro da Heico neste trimestre não é abstração contábil, é veredito objetivo emitido por compradores que poderiam ter dito não. Disseram sim. Caso encerrado.
Enquanto isso, siga o dinheiro do lado de cá. O Brasil de 2026 segue numa farra fiscal travestida de "neoindustrialização", desovando crédito subsidiado em campeões nacionais escolhidos a dedo no gabinete, com a conta sendo paga, como sempre, por quem não tem lobista na Esplanada. O contribuinte enxerga a fábrica que abriu, o emprego anunciado em coletiva, a placa inaugurada com tesoura dourada. O que ele não enxerga é o capital que foi expropriado via imposto, juro alto e inflação para bancar a festa, o empreendedor pequeno que não nasceu porque o crédito secou, a empresa estrangeira que desistiu de vir porque o ambiente regulatório é um pântano. O visível é miserável; o invisível é catastrófico.
E há um segundo recado, mais sutil, neste balanço da Heico. O analista de mercado errou. Errou bonito, em US$ 0,33 por ação, o que em escala de bilhões vira erro grosso. Esses mesmos analistas que não conseguem prever o lucro de uma fabricante de parafuso de turbina com três meses de antecedência são os que aparecem em mesa redonda da televisão decretando, com cara séria, qual deve ser a taxa básica de juros, quanto o governo pode gastar sem virar a Argentina e qual setor merece "estímulo". Se não acertam o trimestre seguinte, por que diabos acertariam o desenho da economia inteira pelos próximos dez anos? A pretensão de planejar de cima sempre esbarrou na realidade banal de que ninguém, nem o mais brilhante dos burocratas, possui o conhecimento disperso que o mercado processa todo dia antes do café.
O resultado da Heico não é notícia espetacular, é notícia normal num lugar onde o capitalismo ainda funciona razoavelmente. O espetacular, o exótico, o digno de manchete, é justamente o que está virando regra do nosso lado: estatais inchadas batendo recorde de prejuízo, bancos públicos financiando aventuras políticas, conglomerados privados que viraram extensão do orçamento federal. A pergunta que fica é simples, quase grosseira na sua obviedade. Quanta riqueza o Brasil deixou de produzir este trimestre, este ano, esta década, porque insiste em substituir o juízo de milhões de consumidores pelo palpite de algumas dezenas de iluminados em Brasília? A resposta, o leitor já sabe, está em todo posto de gasolina, todo supermercado, todo contracheque erodido pela inflação que diziam que não viria.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.