A KE Holdings, plataforma chinesa de transações imobiliárias, anunciou lucro por ação de 8,78 yuans e receita acima das projeções de analistas, num trimestre em que o setor imobiliário do país asiático segue mergulhado naquilo que só pode ser descrito como a maior ressaca de crédito artificial da história econômica moderna. Evergrande virou pó, Country Garden agoniza, Vanke pede socorro, e no meio do escombro alguém ainda consegue lucrar fazendo o que mercado faz quando deixam: aproximar comprador e vendedor. Quer dizer, a notícia é boa para os acionistas e péssima para a narrativa de quem ainda acredita que comitês de planejamento sabem o que fazem com cimento alheio.

Vale lembrar como chegamos aqui. Pequim passou duas décadas inflando uma bolha imobiliária do tamanho de continentes inteiros porque burocratas decidiram, na sua infinita sabedoria, que construção civil seria o motor do milagre chinês. Crédito barato, metas de PIB regional, prefeitos premiados por metros quadrados erguidos, bancos estatais despejando trilhões em projetos que ninguém pediu. O resultado todo mundo já sabe: cidades fantasmas, prédios vazios, dívida corporativa que faria qualquer banqueiro ocidental ter um piripaque. E aí, quando a festa virou ressaca, o mesmo governo que criou o problema agora tenta consertar com mais intervenção, controle de preços e socorro seletivo aos amigos do regime.

Aí entra a KE Holdings, e olha o detalhe interessante. A empresa não constrói nada. Ela é plataforma, intermediário, marketplace. Conecta quem quer comprar com quem precisa vender o apartamento antes que o construtor faliu. Num mercado normal seria empresa de margem apertada e crescimento orgânico; num mercado destroçado pela intervenção estatal, virou uma das poucas formas de fazer dinheiro no setor, porque quando o estoque de imóveis vira ativo tóxico, o cara que ajuda a transferir a batata quente cobra pedágio sobre cada transação desesperada. O lucro deles é, em parte, o luto alheio precificado.

Me diz uma coisa: alguém acredita que esse resultado se sustenta sem que Pequim continue empurrando juros artificialmente baixos, programas de recompra de imóveis com dinheiro impresso e estímulos cosméticos para fingir que a bolha pode ser reinflada? O que se vê no balanço da KE é a receita batendo estimativa. O que não se vê é a fila de famílias chinesas que perderam economias de uma vida em apartamentos que nunca serão entregues, é o capital que foi alocado em concreto inútil em vez de produtividade real, é a geração que vai pagar décadas pelo capricho de planejadores que confundiram crescimento com canteiro de obras.

O mais delicioso da história é o cinismo institucionalizado. Os mesmos analistas de bancos ocidentais que aplaudiam o modelo chinês há cinco anos hoje fazem cara de surpresa diante do estrago, como se a impossibilidade de calcular racionalmente o que produzir sem preços livres não fosse coisa demonstrada décadas atrás. Cada ciclo o roteiro se repete: crédito fácil, euforia construtiva, descoberta tardia de que ninguém realmente sabia o que estava fazendo, ajuste brutal, e no fim alguém escreve coluna dizendo que "desta vez é diferente". Não é. Nunca foi. E qualquer país que copie o receituário, e tem candidato no Brasil, terá o seu próprio Evergrande no devido tempo.

O resultado da KE Holdings é, portanto, ambíguo na essência. É a prova de que o mercado, mesmo amordaçado, encontra brechas para servir consumidor real com necessidade real. E é também o sintoma de uma economia onde a única coisa que ainda funciona com algum brilho é a indústria de catar os cacos do vaso que o Estado quebrou. Bons números numa empresa não redimem um modelo apodrecido. O dinheiro continua falando, mesmo em mandarim, e ele sussurra a mesma coisa de sempre: deixem o mercado em paz.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.