A Virco veio com lucro $0,21 abaixo das projeções e receita menor que a estimada, e instantaneamente o circo das justificativas começou a montar a lona. Quer dizer, uma empresa que fabrica mobiliário escolar, negócio dos mais previsíveis que existe — escola começa, escola compra cadeira, escola termina, escola compra de novo —, e mesmo assim a turma de gravata em Manhattan errou a conta. Olha, quando o erro vira regra e o acerto vira exceção, o problema não está na empresa que entregou o número, está no modelo de quem fingia saber qual seria o número.
O fetiche do guidance trimestral é uma das criações mais perversas do capitalismo financeirizado. Uma fábrica de carteiras escolares é forçada a se contorcer a cada noventa dias para satisfazer planilhas de gente que nunca pisou no chão de fábrica, que não sabe o preço do aço laminado, que não conhece o ciclo de compras das redes públicas de ensino. E quando o número não bate, a ação afunda, o CEO precisa pedir desculpas em call, e capital produtivo real é destruído por uma diferença de centavos em uma projeção que era chute disfarçado de ciência.
Me diz uma coisa: o que produz mais riqueza para a sociedade, uma empresa que entrega cadeira de escola no prazo e com qualidade ou um analista que acerta a segunda casa decimal do EPS? A resposta é óbvia, mas o mercado de capitais americano construiu um sistema de incentivos no qual o segundo é remunerado como deus e o primeiro é tratado como peão. Trinta anos de juros artificialmente baixos transformaram a bolsa em cassino de curto prazo, e o curto prazo é inimigo mortal do investimento industrial.
Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais reveladora. Quem ganha com a volatilidade da Virco frustrando estimativas? Não o acionista de longo prazo, que come o prejuízo do papel caindo. Não o operário da fábrica em Conway, Arkansas, que continua produzindo o mesmo banco escolar de sempre. Ganham os traders algorítmicos que apostaram no miss, ganham os bancos que cobram pela emissão de relatório, ganham os fundos que shorteiam expectativa. A engenharia financeira virou um sistema de extração de valor do trabalho real, e ninguém quer admitir.
O que não se vê nessa notícia é o mais importante. Não se vê o investidor pequeno que aplicou na ação porque acreditou no relatório, e agora amargou a perda. Não se vê o capital que poderia estar sendo alocado em expansão de capacidade produtiva e foi consumido em recompra de ação para manter o EPS artificialmente bonito. Não se vê a distorção que a política monetária frouxa criou ao transformar empresas industriais em veículos de especulação financeira. Tudo isso some na manchete preguiçosa que diz apenas que a empresa frustrou o consenso.
A verdade incômoda é que ninguém sabe com precisão quanto a Virco vai vender no próximo trimestre, e quem afirma que sabe está mentindo, está chutando ou está vendendo serviço. A pretensão de prever em centavos o resultado de milhões de decisões descentralizadas — diretor de escola comprando carteira, prefeitura licitando mobiliário, distribuidor renegociando prazo — é a mesma pretensão fatal que sempre quebra a cara quando colide com a complexidade da ação humana real. Quando o trimestre virar sagrado, a empresa virou refém. E refém não produz, refém sobrevive.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.