O Banco de Sabadell, quarto maior da Espanha, anunciou queda de 28% no lucro do primeiro trimestre de 2026, com a receita líquida de juros recuando e uma fileira de "custos extraordinários" empurrando o resultado ladeira abaixo. O mercado fingiu surpresa, os analistas fingiram cautela, e a imprensa econômica fingiu que isso é uma anomalia pontual de uma instituição específica. Não é. É o roteiro previsível de quem viveu anos engordando à custa de juros artificialmente espremidos pelo Banco Central Europeu e agora precisa explicar ao acionista por que o jardim secou junto com a chuva grátis.
Convém lembrar de onde veio o lucro recorde dos bancos europeus nos últimos dois anos. Não veio de inovação, não veio de eficiência, não veio de produto melhor. Veio do diferencial entre o que pagam ao depositante (quase nada, com a desfaçatez de quem sabe que o correntista não tem para onde fugir) e o que cobram do tomador de crédito (tudo o que conseguem, beneficiados pela alta dos juros que o próprio BCE provocou ao tentar consertar a inflação que ele mesmo fabricou imprimindo dinheiro durante a década anterior). Quando a maré de juros sobe, o banco lucra; quando começa a baixar, o banco geme. A coisa toda é menos um negócio e mais uma engrenagem dependente do humor do burocrata em Frankfurt.
O detalhe saboroso são os tais "custos extraordinários". Toda vez que aparece essa expressão num balanço, vale a pena ler com lupa. Geralmente é a forma elegante de empacotar provisões para créditos podres, multas regulatórias, custos de reestruturação de pessoal e, no caso espanhol específico, o famoso imposto extraordinário sobre lucros bancários que Madri inventou para fingir que estava punindo os bancos enquanto, na prática, transferia para o cliente final a conta da farra fiscal do governo. O banco paga, repassa em tarifa e spread, e o eleitor aplaude achando que alguém em Wall Street está sendo castigado. Ninguém está. O castigado é sempre quem assina o contrato no balcão.
Há um aspecto ainda mais interessante na história do Sabadell, que é o pano de fundo da oferta hostil do BBVA, travada em compasso de espera há meses por interferência política do governo espanhol. Quer dizer, o setor que mais se beneficia do dinheiro estatal barato é o mesmo que invoca o Estado para se proteger da consolidação que o próprio mercado pediria. Capitalismo de balcão, em que o lucro é privado quando dá certo e a proteção é pública quando aperta. Não existe livre mercado quando o governo decide quem pode comprar quem, sob qual prazo e mediante quais concessões eleitorais. Existe um arranjo, e o arranjo tem dono.
O que o resultado do Sabadell escancara é a fragilidade estrutural de um modelo bancário europeu que aprendeu a viver de carona monetária e perdeu a musculatura para gerar valor real. Receita de juros caindo significa que o ciclo virou, que a margem fácil acabou e que agora será preciso fazer o que banco deveria fazer desde sempre: avaliar risco com competência, alocar capital com inteligência e cobrar pelo serviço o que o serviço vale, sem o subsídio implícito do dinheiro impresso. A maioria não vai conseguir. Vai pedir socorro, vai pedir flexibilização regulatória, vai pedir corte de juros emergencial, vai pedir tudo menos o que deveria: que o deixem quebrar para que outro melhor ocupe o lugar.
E aí mora a lição que ninguém quer aprender. Toda vez que o Banco Central segura juros artificialmente, ele não está estimulando a economia, está fabricando a próxima crise. Os lucros bilionários de ontem e o tombo de hoje são o mesmo fenômeno visto em dois momentos do ciclo. Quem entende isso lê balanço bancário com outros olhos; quem não entende segue acreditando que existe gestor genial e gestor azarado, quando o que existe, no fundo, é gestor com vento a favor e gestor com vento contra, ambos navegando num mar que não construíram e não controlam. O Sabadell hoje, outros amanhã. O ciclo não pede licença.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.