O Bawag, esse banco vienense que a maioria dos brasileiros nunca ouviu falar, reportou lucro líquido 16% maior no primeiro trimestre e, na mesma tacada, empurrou adiante a aquisição do Permanent TSB, o terceiro maior banco de varejo da Irlanda. Chamam a operação de "transformadora". E é mesmo, só que convém perguntar para quem. Para o acionista do Bawag, claro, é festa. Para o correntista irlandês, que já tinha poucas opções num mercado bancário notoriamente concentrado desde a crise de 2008, é mais um nome apagado da lista de alternativas.

Olha, a história do sistema bancário europeu pós-crise é sempre contada como se fosse uma epopeia de saneamento e prudência. Na prática, foi o maior exercício de consolidação forçada que o continente já viu, patrocinado com dinheiro do contribuinte, benção regulatória e juros subsidiados durante mais de uma década. Os bancos que sobreviveram não foram os mais eficientes, foram os que receberam mais socorro, mais liquidez barata do Banco Central Europeu e mais proteção regulatória contra a concorrência. Agora esses sobreviventes, engordados com dinheiro alheio, saem às compras. O Bawag comprando o PTSB não é vitória do mercado, é resultado de quinze anos de anabolizante monetário.

Siga o dinheiro e a coisa fica mais clara. O PTSB só existe na forma atual porque foi nacionalizado em 2011 com bilhões de euros dos contribuintes irlandeses. Foi mantido vivo por uma década a custo de subsídios implícitos, garantias estatais e regulação feita para protegê-lo. Agora, quando finalmente volta a dar algum sinal de vida, é vendido a um concorrente estrangeiro. Quem pagou a fatura da ressurreição? O trabalhador irlandês via imposto. Quem colhe o dividendo da aquisição? O acionista austríaco via bolsa. É a socialização das perdas e a privatização dos lucros executada com tanta naturalidade que ninguém mais se incomoda em fingir indignação.

E aí entra o detalhe que os analistas de banco de investimento jamais colocam no relatório. Cada fusão dessas reduz a concorrência no varejo bancário, o que significa spreads maiores, tarifas mais altas e menos inovação para o cliente final. O discurso oficial fala em "sinergias", "escala" e "eficiência operacional". Tradução honesta: demissões, fechamento de agências e precificação menos competitiva porque a alternativa do cliente acabou de ser engolida. O que se vê é o executivo cortando a fita de inauguração da nova estrutura consolidada. O que não se vê é o pequeno correntista da cidade do interior da Irlanda descobrindo que sua conta agora custa dois euros a mais por mês e que o gerente com quem conversava há quinze anos foi "realocado".

Há ainda o ângulo geopolítico que ninguém comenta em voz alta. Um banco austríaco, cujo principal acionista de referência por muito tempo foi um fundo americano de private equity, comprar o terceiro maior banco de varejo irlandês é mais um capítulo da lenta dissolução da soberania financeira dos países periféricos da União Europeia. A Irlanda, que já terceirizou a política monetária para Frankfurt e a política fiscal para Bruxelas, agora terceiriza também o controle do crédito doméstico para Viena. Chamam isso de integração. Podia se chamar, com mais precisão, de desmonte silencioso da capacidade de um país decidir quem empresta para quem dentro de suas próprias fronteiras.

O lucro de 16% é real, o balanço é robusto, o press release é impecável. Mas banco não cresce no vácuo. Cresce porque o ambiente regulatório protege os grandes, porque o custo do dinheiro foi subsidiado por uma década, porque o regulador aprova fusões que em qualquer mercado funcional seriam barradas por concentração, e porque o Estado europeu, que adora se apresentar como defensor do consumidor, na prática constrói oligopólios bancários com a mão esquerda enquanto distribui cartilhas de educação financeira com a direita. Quando o banco fica grande demais para quebrar, o cidadão fica pequeno demais para escolher.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.