Há fotografias que resumem uma era inteira, e a da semana passada em Frankfurt é uma delas. O presidente da Lufthansa, sorrindo como quem acaba de ganhar na loteria, ao lado do chanceler Friedrich Merz, ambos sob o sol generoso e os uniformes de aeromoça restaurados dos anos sessenta. O cenário era de nostalgia comercial, mas o subtexto era outro. Aquilo não era uma festa de aniversário corporativa, era a cerimônia oficial de uma união estável entre a maior companhia aérea da Alemanha e o poder político que a mantém respirando há décadas. Cem anos de Lufthansa, e o chanceler lá, como padrinho de casamento, abençoando o enlace entre o contribuinte e a aviação alemã.

Convém lembrar o que a fotografia não mostra. Em 2020, quando a pandemia triturou o setor aéreo mundial, a Lufthansa recebeu do governo alemão um pacote de resgate de nove bilhões de euros, com o Estado virando sócio temporário da empresa a título de "salvar empregos estratégicos". O contribuinte alemão, aquele senhor anônimo que paga mais de quarenta por cento do salário em tributos, foi convocado a bancar a conta da empresa que, em tempos de lucro, distribuía dividendos para acionistas privados. Privatiza-se o lucro, socializa-se o prejuízo, e no centenário da folia chamam o chefe do governo para o brinde. Quer dizer, o anfitrião celebra o aniversário com o cartão de crédito do convidado, e ainda espera aplausos.

Me diz uma coisa: qual empresa genuinamente privada consegue sobreviver a uma crise setorial global com injeção estatal bilionária, depois recomprar suas próprias ações de volta ao Estado, e ainda se apresentar publicamente como símbolo do capitalismo europeu? Isso não é capitalismo. Capitalismo é quando a empresa que errou quebra, e outra melhor ocupa seu espaço. O que a Lufthansa pratica, com o devido apoio de Berlim, Bruxelas e dos chanceleres de plantão, é o velho mercantilismo com verniz moderno, a mesma lógica dos monopólios coloniais do século dezoito, só que com conexão Wi-Fi a bordo e programa de milhagem. A companhia nunca precisou ser a melhor. Precisou apenas ser a mais bem conectada.

Olha a engenharia do arranjo. A Lufthansa controla, direta ou indiretamente via aquisições, uma fatia dominante do tráfego aéreo europeu, engoliu Swiss, Austrian, Brussels Airlines, agora ITA Airways, e opera sob o guarda-chuva regulatório de uma União Europeia que bloqueia concorrência low-cost com justificativas ambientais seletivas, taxas de ruído e cotas de slots nos aeroportos principais. Enquanto isso, companhias do Golfo e asiáticas oferecem passagens mais baratas, serviço melhor e frotas mais modernas, e são recebidas no continente com barreiras travestidas de preocupação climática. O passageiro europeu paga a diferença. O contribuinte paga o subsídio. O concorrente estrangeiro paga a taxa extra. E o executivo da Lufthansa sobe no palco com o chanceler para celebrar cem anos de excelência alemã.

Há algo quase pedagógico na cena. Toda vez que um governo se associa publicamente a uma empresa dita privada, você está assistindo, em tempo real, ao momento em que a linha entre setor público e setor privado desaparece de vez. O que resta é o que sempre foi: um arranjo entre grandes burocracias, umas chamadas de ministério, outras de conselho de administração, todas financiadas pelo mesmo sujeito silencioso que paga imposto sobre combustível para a gasolina do carro que usa para ir ao aeroporto pegar o voo subsidiado da companhia que recebe resgate estatal em nome dele. E a imprensa econômica ainda chama isso de "parceria público-privada bem-sucedida". Só falta dizer obrigado.

Cem anos de Lufthansa é, no fundo, cem anos de uma lição que o continente europeu se recusa a aprender. Mercado livre não sobrevive quando o Estado escolhe seus campeões nacionais. Concorrência não floresce quando regulação funciona como muralha protetora dos incumbentes. Inovação não acontece quando o resgate é garantido. O que a festa em Frankfurt celebrou não foi a excelência da aviação alemã, foi a resiliência do compadrio europeu, essa arte milenar de convencer o povo de que a empresa do amigo do rei é patrimônio nacional. Fechou a foto, apagou as velas, e a conta, como sempre, chegou pelo correio.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.