Lula foi a Hannover, abriu os braços diante de Friedrich Merz e anunciou, com aquela solenidade de quem descobriu a pólvora, que o Brasil tem "muito a oferecer" à Alemanha. Tem mesmo. Oferece mercado cativo, oferece subsídio disfarçado de "parceria em transição energética", oferece BNDES financiando a compra de tecnologia alemã com dinheiro de brasileiro que nem sabe onde fica Hannover no mapa. A relação nunca mais será a mesma, disse ele. Nisso concordamos. Cada aperto de mão desse tipo custa algumas décadas de juros compostos pagos pela geração que ainda está na escola.

Olha, quando um chefe de Estado viaja com comitiva empresarial e discursa sobre "hidrogênio verde", "reindustrialização" e "nova era", traduza mentalmente. O que está sendo negociado ali é a repartição de um bolo que ninguém assou ainda, e a farinha do bolo vai sair do imposto que você paga no combustível, na conta de luz, no boleto do supermercado. A Alemanha não está em Hannover oferecendo caridade. Está com a indústria afundando, com preço de energia nas alturas desde que desligou as usinas nucleares por motivo de moda ambiental, e precisa de commodity barata e de um destino para equipamentos que o mercado interno deles já não absorve. Quem paga a diferença entre o preço competitivo e o preço político somos nós, via tesouro, via banco público, via tarifa.

Quer dizer, a conversa de "o mundo mudou, não podemos mais ser apenas exportadores de minério" é repetida em cada feira industrial há quarenta anos, sempre pelo mesmo tipo de político, sempre com o mesmo resultado. Plano nacional de hidrogênio, plano nacional de semicondutor, plano nacional de veículo elétrico, plano nacional do que a moda europeia estiver pedindo naquele semestre. O que se vê é a foto bonita no telão da feira. O que não se vê é a pequena indústria brasileira que fecha porque a energia ficou mais cara para bancar o subsídio ao projeto faraônico, é o agricultor que perde competitividade porque precisa comprar insumo certificado segundo regra europeia, é o trabalhador cujo salário real encolhe porque a moeda foi diluída para financiar o festival de acordos.

Me diz uma coisa, alguém ainda acredita que burocrata em Brasília e burocrata em Berlim sabem, sentados numa mesa de Hannover, quais setores devem crescer nos próximos vinte anos? É a mesma arrogância de sempre, a crença de que meia dúzia de iluminados consegue substituir milhões de decisões descentralizadas que o mercado faria sozinho se o deixassem em paz. Toda vez que tentaram, o resultado foi o mesmo. Fábrica de computador dos anos oitenta, estaleiro dos anos setenta, siderúrgica estatal dos anos sessenta, cada um deles vendido depois como sucata, cada um deles engolindo gerações de dinheiro público que poderia ter ficado nas mãos de quem o ganhou.

E tem a parte cultural do negócio, que é a mais sorrateira. Junto com o "acordo estratégico" vem a régua regulatória europeia, o pacote ESG, a taxonomia verde, a rastreabilidade obrigatória, a diretiva tal, o selo qual. O Brasil assina como quem aceita padrinho e, em poucos anos, o produtor rural do Mato Grosso está preenchendo formulário escrito em Bruxelas para vender soja que sempre vendeu. Chama-se isso de soberania, de parceria, de modernização. O nome correto é vassalagem regulatória, e ela custa caro porque toda norma externa adotada sem discussão interna é uma fatia a menos de autonomia econômica e uma fatia a mais de custo embutido no preço final.

A relação nunca mais será a mesma, repetiu o presidente em Hannover, e sobre isso não paira dúvida. Cada viagem dessas deixa o país um pouco mais endividado, um pouco mais dependente, um pouco mais amarrado a compromissos que nenhum eleitor aprovou e cuja fatura só chega depois que os protagonistas da foto já estão cuidando das memórias em livro. O problema nunca é o comércio, o problema é o comércio com a mão do Estado pesando na balança e a impressora de dinheiro zumbindo ao fundo. Promessa de grandeza em feira internacional é como perfume em funerária, serve apenas para disfarçar o cheiro do que está em decomposição.

Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.