Existe uma cena que se repete em todo governo que resolve "proteger" o trabalhador: primeiro o anúncio grandioso, depois o recuo envergonhado, depois a articulação nos bastidores, depois o novo anúncio como se o recuo nunca tivesse existido. O governo Lula chegou à etapa três da escala 6x1. O líder do governo na Câmara, recém-empossado após o episódio em que o antecessor "queimou a largada" ao sinalizar uma mudança de estratégia que ninguém havia acordado internamente, agora informa que o presidente precisa conversar com Hugo Motta antes de enviar qualquer coisa. Traduzindo: o governo não sabe o que quer, não combinou com a Câmara, e usa o trabalhador como figurante de uma novela política que tem data de estreia marcada para 2026.
A proposta em si merece análise fria, porque o debate público não tem conseguido fazer isso. A escala 6x1 é um contrato. Um contrato entre trabalhador e empregador, mediado pelo mercado, pelas convenções coletivas e pelas condições de cada setor. Em alguns setores, quem trabalha nessa escala ganha mais por isso, prefere isso, ou vive em regiões onde essa é a única oferta disponível. A pergunta que nenhum apresentador de televisão faz é a mais óbvia de todas: se mudar a escala para 5x2 fosse simples e sem custo, por que as empresas não fizeram isso antes? A resposta está num Excel que ninguém mostrou na TV. Quando o custo da mão de obra sobe por decreto, alguém paga. Geralmente, é o trabalhador que não foi contratado, o trabalhador que foi mandado embora, ou o trabalhador que foi transferido para a informalidade, onde nenhuma lei chega.
O que se vê é o discurso: "menos horas de trabalho, mais dignidade". O que não se vê é o contador de uma padaria no interior do Maranhão refazendo a planilha de custo e concluindo que contratar mais um funcionário para cobrir a escala reformada não é viável. O que não se vê é o jovem que tentava entrar no mercado e encontrou a porta fechada porque a regulação tornou o seu contrato caro demais. O que não se vê é a expansão silenciosa da informalidade, onde as leis trabalhistas que o governo empilhou com tanto orgulho valem exatamente zero. Toda regulação bem-intencionada tem uma sombra. Ignorar a sombra não é política, é propaganda.
Mas o que chama mais atenção nessa história não é o mérito da proposta, que pode ser discutido. É a qualidade do processo. O governo federal, com toda a sua máquina, não conseguiu chegar a um consenso interno sobre se a proposta iria por PL ou por PEC antes de vazar para a imprensa. O líder anterior foi trocado após sinalizar publicamente uma posição que não estava acertada. O novo líder, dias depois, anuncia que o presidente precisa de uma reunião com o presidente da Câmara para destravar o que deveria ter sido destravado antes do primeiro anúncio. Isso não é governança. É improvisação com microfone aberto.
A Câmara, pelo seu lado, prefere o caminho da PEC, que é mais lento, mais difícil, exige maioria qualificada e envolve muito mais negociação. O governo prefere o PL com urgência, que é mais rápido, mais controlável e, principalmente, pode render um palanque antes das eleições. A divergência entre Lula e Motta não é técnica. É sobre quem leva o crédito político quando a proposta passar. O trabalhador em escala 6x1 é o pretexto, não o protagonista. O protagonista, nesse tipo de disputa, é sempre o mesmo: o capital político acumulado às custas de quem madruga para pagar as contas.
A escala 6x1 pode ser boa ou ruim dependendo do setor, do trabalhador, do contrato e da realidade local. Mas uma coisa é certa: um governo que não consegue articular sua própria proposta antes de anunciá-la, que troca líderes por descoordenação interna e que ainda precisa de reunião presidencial para saber se pode enviar um projeto ao Congresso, esse governo não está protegendo ninguém. Está se protegendo.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.