Olha que cena curiosa. O chefe do Executivo brasileiro, terceiro mandato, comício atrás de comício, decide que o caminho para entender as últimas medidas americanas é ficar perto do telefone esperando que o outro lado da linha tenha a bondade de discar. Quer dizer, não se manda embaixador, não se aciona o Itamaraty com agenda firme, não se constrói canal técnico de pressão. Espera-se. Como se relação entre potências fosse namoro de adolescente no orelhão da esquina.

O detalhe que ninguém quer encarar de frente é que telefonema não chega porque não há peso do outro lado da balança. Os Estados Unidos não ligam para quem precisa da ligação; ligam para quem eles precisam ouvir. E quem precisa ser ouvido constrói esse peso com economia robusta, moeda confiável, segurança jurídica e previsibilidade fiscal, coisas que andam em falta no balcão por aqui faz tempo. Quando o país transforma o Banco Central em alvo de campanha, eleva gasto público a religião e trata investidor como inimigo de classe, o telefone toca para os outros.

Vale a pena seguir o dinheiro nessa história. Cada medida americana de tarifa, sanção ou restrição comercial tem nome, sobrenome e CNPJ do beneficiário lá dentro. Indústria que ganhou proteção, lobby que cobrou favor, congressista que pagou conta de campanha. O presidente brasileiro pode até não saber disso, mas o sujeito que ele quer chamar no telefone sabe perfeitamente, e por isso não atende. Não há nada para conversar quando a régua do outro lado é interesse concreto e a régua do lado de cá é desabafo em transmissão ao vivo.

Há ainda o pequeno detalhe pedagógico de que política externa séria não se anuncia em coletiva como quem reclama do garçom. Se você precisa avisar publicamente que está esperando ligação, é porque a ligação não vai vir, e você está usando a imprensa para fabricar versão de protagonismo onde só existe constrangimento. É o velho truque de transformar passividade em pose, espera em estratégia, irrelevância em soberania ferida. O leitor atento percebe, o eleitor cativo aplaude, e o problema continua exatamente onde estava.

O que se vê é o discurso de soberania ofendida; o que não se vê é a fatura silenciosa que o produtor rural, o exportador, o industrial e o consumidor brasileiro vão pagar enquanto o telefone não toca. Toda tarifa lá fora vira preço aqui dentro, toda restrição comercial vira margem comprimida, toda incerteza diplomática vira prêmio de risco no câmbio. E prêmio de risco no câmbio, na vida real, é o feijão mais caro na panela de quem mora em conjunto habitacional, não no Alvorada.

Me diz uma coisa, desde quando esperar pelo telefonema do outro virou política de Estado de um país continental? Houve tempo em que a diplomacia brasileira era levada a sério porque tinha clareza de objetivo, quadro técnico respeitado e governo que entendia que o mundo não gira em torno de Brasília. Hoje sobrou a encenação, a indignação ensaiada e a fé patética de que basta querer ser relevante para que os outros concordem. O mundo não funciona assim, nunca funcionou, e fingir que funciona é o caminho mais curto para a próxima humilhação no noticiário.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.