A frase é antiga, mas soa sempre como novidade na boca de quem a repete. Reconstruir a indústria nacional de fertilizantes, evitar a dependência, reposicionar o Brasil no tabuleiro global. O roteiro é decorado, vem com trilha sonora patriótica, bandeira ao fundo e a inevitável farpa no adversário que, segundo a narrativa, fechou as fábricas que agora serão heroicamente reabertas. Só que ninguém no palanque explica uma coisinha simples, que é por que a iniciativa privada, que tem tudo a ganhar produzindo fertilizante num país que é celeiro do mundo, não o faz nas escalas desejadas. A resposta está escondida debaixo do tapete, e o tapete é justamente o discurso da soberania.
A indústria de fertilizantes brasileira não quebrou por maldade de presidente nem por descuido patriótico. Ela quebrou pelas mesmas razões que quebraram siderúrgicas estatais, estaleiros estatais, fábricas de caminhões estatais e todo o zoológico de empresas que nasceram da vaidade de tecnocratas nos anos setenta. Custo de gás natural brasileiro caríssimo, carga tributária delirante, logística de terceiro mundo, insegurança jurídica, ambientalismo de cartório e sindicalismo de confronto. Nenhum desses problemas se resolve com carimbo presidencial. Pelo contrário, todos eles foram criados ou agravados justamente pelo Estado que agora promete resolver o que ele mesmo fabricou.
Quando o discurso fala em reconstrução, o que está sendo proposto, em bom português, é subsídio disfarçado. Alguém vai emprestar dinheiro público a juro camarada, alguém vai receber isenção fiscal que outro setor não tem, alguém vai conseguir contrato de fornecimento garantido a preço acima do internacional, alguém vai botar a mão em financiamento bancário com carimbo oficial. E esse alguém tem nome, sobrenome, CNPJ e agenda de almoço em Brasília. Siga o dinheiro e você verá que a soberania nacional, quando ganha sotaque de discurso, costuma desaguar na conta bancária de uns três ou quatro grupos econômicos muito específicos, que financiam campanha, bancam narrativas e depois cobram o retorno.
O que se vê é a fábrica inaugurada com corte de fita, os empregos anunciados em caixa alta, o ministro sorrindo para a foto. O que não se vê é o agricultor que continuou pagando pelo fertilizante um preço ajustado ao subsídio que ele próprio financiou com imposto, o consumidor que encarece cesta básica porque o alimento sobe junto, o setor produtivo que não recebeu o crédito porque ele foi para o amigo do governo, e as dezenas de pequenos negócios que poderiam ter nascido com o capital que o Estado confiscou para bancar a brincadeira. Cada emprego celebrado no palanque é o cemitério silencioso de outros cinco que não apareceram, e que ninguém vai chorar porque ninguém consegue contar os mortos que não nasceram.
A fantasia da autossuficiência, essa mania de querer produzir tudo dentro de casa, ignora solenemente a razão pela qual a humanidade inteira enriqueceu quando começou a trocar. Ninguém pergunta se São Paulo é autossuficiente em laranja nem se o Rio Grande do Sul é soberano em maçã, porque todos sabem que comprar do vizinho mais eficiente é ficar rico, e tentar fazer em casa o que o vizinho faz melhor é empobrecer com orgulho. Mas quando o vizinho é russo, marroquino ou canadense, aí a lógica econômica é engavetada em nome de uma bandeira que, ao final, custa caro demais para o bolso de quem trabalha de verdade. Soberania sem produtividade é miséria com hino nacional ao fundo.
Me diz uma coisa, se o setor era tão estratégico, tão promissor, tão óbvio, por que o mercado privado não estava lá? A resposta incomoda porque é simples. Porque o governo, com seus impostos, suas regulações, sua energia cara e seu gás monopolizado, tornou inviável fazer no Brasil o que se faz em qualquer outro lugar do mundo. E a solução anunciada para o problema causado pelo Estado é, adivinhe, mais Estado. É como chamar o piromaníaco para apagar o incêndio que ele mesmo ateou, e ainda aplaudir de pé quando ele aparece com o galão debaixo do braço. O brasileiro vai pagar a conta, como sempre pagou, e daqui a quinze anos algum outro presidente subirá ao palanque para anunciar que vai reconstruir a indústria de fertilizantes que o antecessor deixou quebrar.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.