Às vésperas da entrada em vigor do acordo entre Mercosul e União Europeia, o presidente apareceu para celebrar o feito e, na mesma frase, acusar os europeus de espalharem "afirmativas falsas" sobre a agricultura brasileira e de levantarem barreiras travestidas de ambientalismo contra o biocombustível nacional. Quer dizer, o sujeito passa vinte e cinco anos negociando um contrato, coloca a caneta no papel, posa para o álbum de família diplomático, e aí descobre, surpreendido, que o outro lado cobrou condições. Choque.

O detalhe que ninguém da comitiva oficial tem coragem de dizer em voz alta é simples. A União Europeia não ergue barreira sanitária porque ama borboleta ou porque perdeu o sono pensando na Amazônia. Ergue porque tem lobby agrícola interno gigantesco, subsidiado até a raiz do cabelo pela PAC, que não quer competir com soja, carne e etanol brasileiros em pé de igualdade. O rótulo ambiental é a fantasia bonita para um protecionismo grosseiro, daqueles que o velho mercantilismo do século dezoito praticava sem maquiagem. Mudou o figurino, o enredo é o mesmo.

Mas olha a ironia. Quem reclama dessa barreira externa é exatamente o governo que, internamente, transformou o próprio agronegócio em suspeito permanente, que aprovou marco temporal como vilão, que criou camadas de exigência ambiental que nem o europeu sonha em cumprir, e que hoje descobre, indignado, que Bruxelas está usando o discurso verde para fechar a porta. Plantaram o vocabulário, importaram a ideologia, financiaram as ONGs que exportavam a narrativa, e agora levam a conta de volta, com frete e juros. O tiro saiu pela culatra, e o atirador ainda está procurando o culpado.

Sobre o biocombustível, a história é mais descarada ainda. O etanol brasileiro é, objetivamente, o mais eficiente do planeta, e por isso mesmo é o que menos interessa a quem vende biodiesel subsidiado de colza europeia. Proteção climática, aqui, significa proteger o produtor ineficiente de casa contra o produtor eficiente de fora. É a velha janela quebrada da economia, só que invertida: destrói-se a eficiência alheia para criar emprego artificial no próprio quintal, e chama-se isso de política verde. O que se vê é o agricultor francês sorrindo. O que não se vê é o consumidor europeu pagando mais caro e o trabalhador brasileiro perdendo mercado.

O mais revelador é o método. O presidente exalta o acordo quando fala para a plateia que gosta de "integração", e critica o acordo quando fala para a plateia que gosta de "soberania". Defende livre comércio no parágrafo um e protecionismo reverso no parágrafo dois. Essa elasticidade não é improviso, é técnica. Julga-se um político pelo que ele faz, não pelo que ele diz numa coletiva, e o que esse governo faz é assinar tudo que aparece, cobrar aplausos pela assinatura e, quando a fatura chega, acusar o garçom de racismo econômico. Funciona porque a imprensa oficial não faz a pergunta óbvia.

A pergunta óbvia é esta: se o acordo era ruim, por que assinou; se era bom, por que está reclamando. A resposta, como sempre, está no dinheiro. O acordo abre mercado para grupos específicos, politicamente alinhados, que vão capturar os ganhos, enquanto os custos regulatórios e as travas verdes serão rateados entre milhões de produtores que não têm assessor em Brasília. Privatizam-se os lucros da foto, socializam-se os prejuízos do contrato. É o manual de sempre, só que dessa vez traduzido para o francês.

Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.