Quem assistiu à primeira Cúpula Espanha-Brasil em Madri viu a cena pitoresca de um presidente brasileiro invocando o fantasma de Hitler enquanto, na mesa ao lado, uma dezena de ministros rubricava acordos bilaterais que nenhum contribuinte leu, aprovou ou pediu. A frase pronta, de que quando há um retrocesso na democracia surge um Hitler, serviu de cortina de fumaça perfeita para o que importava naquela reunião: contratos de Estado para Estado, compromissos firmados em nome de 215 milhões de brasileiros por um homem que parece cada vez mais confortável no papel de síndico vitalício do país.

Vale olhar com calma para o uso da palavra. Os regimes totalitários do século passado não nasceram de retrocesso democrático no sentido que o discurso oficial quer vender. Nasceram, em todos os casos documentados, da expansão monumental do Estado, do esmagamento do setor privado por regulação e imposto, da dependência fabricada entre cidadão e burocracia, da promessa salvífica de que um líder esclarecido resolveria o que a liberdade não conseguia. Quem estuda história sem lentes ideológicas sabe disso. O monstro nunca surge do pouco governo demais. Surge sempre do governo demais.

E aqui a ironia da fala madrilena atinge nível operístico. O interlocutor que alerta contra o avanço de figuras autoritárias é o mesmo que preside uma máquina estatal que consome mais de 40% do PIB, que imprime regulação em velocidade industrial, que aparelha ministérios com correligionários, que chama de democracia o uso da máquina pública para calar adversários em tribunais e redes sociais. Quer dizer, o fantasma que ele aponta no espelho tem o rosto dele mesmo. A plateia aplaude, o contribuinte paga, e ninguém pergunta quem é o retrógrado da história.

Siga o dinheiro que a cena fica mais clara. Uma cúpula bilateral com diversos acordos significa, na prática, que alguém paga. Empresas espanholas travestidas de parceiras sentam à mesa do governo brasileiro na expectativa de contratos, concessões, subsídios cruzados, financiamentos com juro abaixo do mercado via bancos estatais. Do lado de cá, empresários com boa agenda em Brasília disputam o papel de parceiro estratégico. O custo vai para o contribuinte, que não foi convidado. O benefício vai para o circuito fechado de quem consegue despachar no gabinete certo. Isto não é livre comércio. É capitalismo de compadrio com sotaque ibérico.

Há ainda a questão mais grave, a da palavra democracia virar chicote. Quando um político usa o termo como sinônimo de concordar comigo e retrocesso democrático como sinônimo de discordar de mim, a palavra perde sentido. Vira vocábulo vazio, útil apenas para calar adversário em mesa de debate. Quem inventou esta técnica retórica não foram os ditadores clássicos; foram os intelectuais que lhes prepararam o terreno. A cada vez que o chefe de Estado agita a bandeira do risco autoritário contra quem pensa diferente, o risco real aumenta de um lado só, e não é do lado que ele aponta.

O erro de quem compra o discurso é achar que a vigilância contra o totalitarismo se faz assistindo ministros assinarem papéis em salas decoradas enquanto o presidente recita fórmulas prontas sobre os anos 30. A vigilância verdadeira se faz medindo o tamanho do Estado, a pressão tributária, a quantidade de leis novas por mês, o nível de discricionariedade do burocrata sobre a vida do cidadão comum. Por esses indicadores, a sirene tocou faz tempo. Só que ela não aponta para oposição nenhuma. Aponta para o Palácio do Planalto.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.