Veja o truque semântico que acabou de ser executado em praça pública. O presidente declara, com ar de estadista magnânimo, que "temos que aceitar o resultado" caso Flávio Bolsonaro vença as eleições de outubro. Dois segundos depois, no mesmo parágrafo, crava que não há lugar para "fascistas e pessoas que não acreditam na democracia". Quer dizer, aceita-se o resultado, mas o adversário já foi previamente catalogado como inimigo da ordem democrática. Isso não é respeito ao jogo, é a velha arte de empilhar o baralho antes de mandar o outro cortar.
Olha, a lógica aqui é elementar e devastadora. Se o oponente é fascista e antidemocrático, como se aceitaria uma vitória dele? Ou o rótulo é falso, e portanto calúnia eleitoral disfarçada de análise política; ou o rótulo é verdadeiro, e aí "aceitar o resultado" vira retórica vazia, porque nenhuma república séria entrega o poder a quem se acredita sinceramente ser inimigo da república. Das duas uma. O que não pode é o presidente viver nas duas ao mesmo tempo, usando uma frase para parecer democrata e a seguinte para deslegitimar a oposição. Caráter se mede pelas ações e pela coerência do discurso, não pelo tom grave da voz quando se pronuncia a palavra democracia.
Há também aquilo que ninguém quer ver porque ninguém ganha nada enxergando. A eleição brasileira deixou de ser disputa de projetos para virar disputa de quem tem autorização para disputar. Durante quatro anos, montou-se uma engrenagem judicial, midiática e regulatória para transformar adversários políticos em ilegítimos por decreto, em inelegíveis por despacho, em ameaças por narrativa. O eleitor, esse sujeito incômodo que insiste em existir, foi sendo gentilmente informado de que suas opções já vêm pré-filtradas pelo andar de cima. Chamam isso de defesa da democracia. Em qualquer dicionário honesto, chama-se tutela.
E siga o dinheiro, que a conversa fica mais interessante. Quem financia campanha, quem recebe emenda, quem controla fundo eleitoral bilionário, quem pauta programa em TV pública, quem distribui verba de publicidade estatal, quem aprova cargo comissionado no STF e no TSE. Cada uma dessas peças está cuidadosamente encaixada para que o resultado de outubro já venha com margem de ajuste programada em fábrica. Aceitar o resultado, nesse contexto, custa pouco, porque o resultado já nasce parcialmente domesticado pela arquitetura institucional montada ao longo da última década. A urna é livre, o caminho até ela é que foi asfaltado com pedágio ideológico.
Note também a inversão semântica, que é o truque mais antigo da cartilha. Fascista, hoje, não designa mais o corporativismo estatal, o partido único, o culto ao líder, a fusão Estado-empresa, a censura administrativa, o controle de preços e o aparelhamento cultural. Fascista, no léxico atualizado do Palácio, é simplesmente quem discorda do ocupante do Palácio. A palavra foi esvaziada de conteúdo e transformada em arma de curadoria eleitoral. Repetida mil vezes, ela passa a funcionar como sentença judicial sem processo, sem defesa, sem recurso. É a pilhagem da linguagem a serviço da pilhagem do voto.
O que está em jogo em outubro, portanto, não é apenas quem senta na cadeira. É se ainda resta ao brasileiro comum o direito elementar de escolher errado aos olhos dos iluminados. Democracia de verdade é aquela em que o resultado surpreende o poder, não aquela em que o poder anuncia o resultado aceitável antes da apuração. Quando o governante precisa avisar que aceitará perder, é porque já pensou seriamente na hipótese de não aceitar. E quando, na mesma frase, decreta que o adversário é indigno de vencer, já respondeu qual das duas hipóteses prefere.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.