Existe um tipo específico de cinismo que só se desenvolve após décadas de poder. Não é a mentira grosseira do novato, nem a omissão envergonhada de quem ainda tem algum pudor. É aquela declaração proferida com a voz pausada de quem acredita que o interlocutor é estruturalmente incapaz de perceber a contradição. O presidente do PT olhou para as câmeras e explicou que Lula sofre com o desgaste que a política vive por causa da corrupção. Não o PT. Não o governo. A política. Como se corrupção fosse um fenômeno climático que cai sobre todos igualmente, uma garoa fina que molha tanto o corrupto quanto o correto, e Lula fosse apenas mais um transeunte com o terno úmido.

Os números são o que são e não pedem licença para existir. Vinte e nove por cento de avaliação positiva significa que sete em cada dez brasileiros não consideram o governo bom. Não é crise de comunicação, não é algoritmo do Instagram, não é oposição barulhenta. É a realidade que insiste em se manifestar mesmo quando o aparato de mídia simpática trabalha em sentido contrário. E o mais revelador não é o número nacional, que já seria suficiente para enterrar qualquer análise otimista. É o Nordeste. A região que votou em Lula com fervor de procissão, que resistiu a todas as informações negativas como uma fortaleza ideológica, chegou à sua mínima histórica de apoio. Quando o fiel abandona o templo, não é porque a oposição convenceu, é porque a experiência acumulada falou mais alto que a fé.

O raciocínio do PT sobre corrupção tem uma elegância quase admirável na sua desfaçatez. O partido que governou o Brasil por quatorze dos últimos vinte e três anos, que passou pelo maior escândalo de corrupção da história do país no seu próprio governo, que teve seu líder condenado em três instâncias antes de ter a condenação anulada por um jogo processual que os próprios advogados de defesa mal conseguiam explicar com cara séria, este partido agora se apresenta como vítima de um ambiente geral de desconfiança nas instituições que ele mesmo contribuiu para criar. É como o incendiário que lamenta o cheiro de fumaça na cidade.

Siga o dinheiro e você encontra o caráter. Não o caráter declarado nos discursos, não o caráter performado nas fotos com trabalhadores, mas o caráter real, que só aparece quando há algo concreto em jogo. Os escândalos que cercam este governo, do superfaturamento à influência indevida, não são aberrações de um sistema saudável. São o sistema funcionando exatamente como foi desenhado por quem o ocupa. Quando uma estrutura de poder é construída para redistribuir recursos do contribuinte por fora dos critérios técnicos e por dentro dos critérios políticos, o que se chama de corrupção é simplesmente o mecanismo operando sem a embalagem presentável. O desgaste não veio de fora. Nasceu dentro.

Há uma lição que os impérios, os reinos e as repúblicas aprenderam da forma mais dolorosa ao longo dos séculos: a legitimidade política não se decreta e não se compra indefinidamente. Ela é construída pela coerência entre o que se promete e o que se faz, entre o discurso da austeridade e a prática do aparelhamento, entre o programa de combate à corrupção e a lista de aliados com mandatos suspensos ou investigações em curso. Quando essa coerência colapsa, nem o maior aparato de comunicação do mundo segura a maré. O Nordeste não mudou de partido. O Nordeste simplesmente abriu os olhos para o que estava diante dele desde o início.

Edinho Silva fez um favor involuntário ao país ao verbalizar o que o PT pensa de verdade: que a corrupção é um problema da política, e que Lula é apenas uma vítima circunstancial de um ambiente que ele encontrou assim. Essa narrativa tem apenas um problema pequeno, que é não ser verdade. E quando a narrativa e a realidade divergem com esta clareza, em algum momento a realidade vence. Vinte e nove por cento é o placar parcial dessa vitória.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.