A Macerich, gigante americana de shopping centers, anunciou a precificação de uma oferta secundária de ações no valor de 403 milhões de dólares, com cada papel saindo a 21 dólares. Traduzindo do dialeto de banqueiro para o português dos mortais, a companhia está imprimindo ações novas, jogando no mercado e diluindo a participação de quem já era acionista. O comunicado vem com aquele verniz técnico de praxe, falando em "uso geral corporativo" e "redução de alavancagem", expressões que servem para o mesmo propósito do incenso na missa, esconder o cheiro do que realmente está acontecendo ali dentro.

Olha, toda vez que uma empresa altamente endividada decide captar via emissão de ações em vez de operar lucro, é porque o caixa não está dando conta do serviço da dívida. Ponto. Não existe meio termo. A Macerich carrega bilhões em obrigações herdadas da era do dinheiro de graça, quando o Federal Reserve mantinha os juros artificialmente próximos de zero e qualquer modelo de negócio, por mais furado que fosse, parecia genial enquanto o crédito jorrava. Agora que o custo do dinheiro voltou a ter algum significado, os REITs descobriram que comprar shopping com dívida barata era ótimo até o dia em que o boleto chegou no preço cheio.

O ponto que ninguém da CNBC vai mencionar é o seguinte: essa emissão é o resultado direto, embora invisível para o leitor distraído, de quinze anos de política monetária frouxa. O ciclo é sempre o mesmo, e a humanidade insiste em fingir que dessa vez vai ser diferente. Banco central derruba juros no chão, capital corre para ativos de longa duração como imóveis comerciais, surgem os gênios do private equity comprando tudo o que tem telhado, a bolha infla, os juros sobem para conter a inflação que o próprio banco central criou, e no fim quem paga a conta é o aposentado que tinha cota num fundo imobiliário sem fazer ideia de que estava financiando a aventura alheia.

Repare na elegância do mecanismo de transferência de prejuízo. A diretoria executiva já recebeu seus bônus baseados em métricas infladas pela tomada de dívida agressiva. Os bancos que estruturaram as emissões originais embolsaram suas comissões. Os fundos que entraram cedo já realizaram lucro. Quem sobra segurando o mico no momento da diluição é o investidor pulverizado, o pequeno acionista, o fundo de pensão que precisa rodar índice. Esses não recebem ligação avisando que vão ser sacrificados, descobrem pela manchete na manhã seguinte. É a privatização sistemática dos lucros e a socialização envergonhada dos prejuízos, só que sem nem precisar do governo no meio.

E veja a perversidade conceitual da operação. A empresa não está produzindo nada de novo, não está abrindo uma loja, não está inaugurando um shopping, não está contratando um funcionário. Está simplesmente reorganizando passivos no papel, transformando dívida com banco em dívida com acionista, que é uma dívida sem prazo de vencimento e sem juros explícitos, mas com um custo real chamado diluição. Wall Street chama isso de "engenharia financeira", uma expressão que tem para a economia real o mesmo valor que "alquimia" tinha para a química do século XV, fingimento sofisticado disfarçado de ciência.

O recado para quem investe é direto e desconfortável. Quando uma empresa madura, num setor maduro, precisa pedir dinheiro novo aos acionistas em vez de devolvê-lo via dividendo ou recompra, alguma coisa apodreceu na estrutura. O mercado vai aplaudir hoje porque adora a narrativa do balanço mais leve, e vai chorar daqui a dezoito meses quando perceber que o problema não era a dívida, era o modelo de negócio rodando num mundo onde o consumidor americano está endividado até a alma e o varejo físico segue sangrando para o digital. Shopping center não morre rápido, morre devagar, e a conta dessa morte lenta alguém vai pagar. Já sabemos quem.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.