Emmanuel Macron está prestes a nomear Alexis Kohler, ou melhor, seu equivalente funcional, o leal Bertrand Moulin, para a presidência do Banco da França. O homem que organizava a agenda do presidente, filtrava seus interlocutores e executava sua vontade dentro do Eliseu agora vai presidir a instituição que, em tese, deveria ser o contrapeso técnico ao poder político. Se isso parece a você uma piada de mau gosto, parabéns, você ainda tem algum resíduo de bom senso preservado em meio à névoa cívica europeia.

Repita comigo a fórmula sagrada que economistas de banco e jornalistas econômicos recitam todo dia útil às nove da manhã, banco central independente, banco central independente, banco central independente. Agora observe a realidade, o presidente da República escolhe o presidente do banco, e quando o presidente da República escolhe seu próprio chefe de gabinete para o posto, a palavra independência adquire uma elasticidade semântica admirável, daquelas que só sobrevivem em comunicados oficiais e em editoriais escritos por gente que precisa do convite do próximo coquetel.

Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais didática. A França carrega uma dívida pública na casa dos cento e quinze por cento do PIB, déficit fiscal crônico, gastança eleitoreira sem freio e uma economia que cresce no ritmo de um aposentado caminhando contra o vento no Sena. Quem precisa de juros baixos para rolar essa montanha de papel? O governo. Quem decide os juros, ou ao menos influencia decisivamente o tom da política monetária do BCE pela vaga francesa no conselho? O presidente do Banco da França. E quem agora indica esse presidente? O dono da dívida. Genial. É como pôr o devedor para presidir o tribunal que vai julgar a execução.

O truque é antigo e a ironia é que os mesmos sujeitos que rasgam vestes quando um presidente latino-americano arranha o sistema financeiro local consideram absolutamente normal essa pequena coreografia parisiense. Lá é deselegância, aqui é governança. Lá é populismo, aqui é continuidade institucional. A diferença real, o nível de sofisticação do envernizamento. Os franceses fazem com champanhe, ata em francês e currículo na Sciences Po, o resto do mundo faz com decreto e cara fechada. O resultado prático é o mesmo, a política monetária deixa de ser técnica e passa a ser uma extensão do gabinete presidencial.

O que não se vê nessa história é o cidadão francês que vai pagar a conta em silêncio, com inflação corroendo seus salários, juros artificialmente domados para servir ao Tesouro, poupança evaporando em tempo real e uma moeda que vale cada vez menos a cada decisão tomada por critérios políticos disfarçados de prudência técnica. Não há almoço grátis, alguém está bancando o banquete dos amigos do rei, e esse alguém somos nós, não eles. A inflação é o imposto perfeito, ninguém vota a favor, ninguém precisa aprová-la no parlamento, e ela atinge com mais força exatamente quem tem menos para se defender.

O mais cômico é o ritual de comunicação que vem por aí. Veremos editoriais elogiando a experiência institucional do indicado, sua serenidade, seu compromisso com a estabilidade, sua independência de espírito. Independência de espírito, aliás, é exatamente o que se espera de quem passou os últimos anos servindo café e organizando voos para o homem que agora o promove. A República das letras, que outrora produziu pensadores capazes de derrubar reis com uma frase, hoje produz comunicados de imprensa para legitimar a captura silenciosa das últimas instituições que ainda fingiam alguma autonomia. Quando o devedor escolhe o juiz, a sentença já está escrita antes do processo começar.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.