A notícia chega com aquele verniz de eficiência técnica que costuma envolver os grandes contratos governamentais. A Made Tech, listada em Londres, venceu uma disputa no Met Office para prestar serviços de engenharia de dados, nuvem e transformação digital, com valor potencial que pode chegar a £68 milhões ao longo do período do acordo. As ações da empresa reagiram na hora, como reagem todas as empresas que descobrem o segredo mais bem guardado do capitalismo moderno: o cliente mais generoso do mundo é aquele que gasta dinheiro que não é dele.
Quer dizer, ninguém pergunta ao cidadão britânico se ele prefere pagar £68 milhões por uma reforma tecnológica no serviço meteorológico ou se preferiria manter esse dinheiro no bolso para tomar as próprias decisões. A pergunta simplesmente não existe. Existe o edital, existe a comissão técnica, existe o processo competitivo que na aparência é impecável, e no fim existe uma transferência silenciosa de riqueza do bolso de milhões de pagadores de impostos para o caixa de uma empresa específica. O que se vê é o contrato assinado e o comunicado triunfante. O que não se vê são as milhares de pequenas decisões de consumo que deixarão de acontecer porque aquele dinheiro foi capturado antes de chegar ao seu destino natural.
Olha, ninguém aqui está dizendo que o Met Office não precisa de sistemas modernos. A questão nunca é essa. A questão é por que um serviço que deveria funcionar sob a lógica da eficiência e da concorrência real opera dentro de um mercado cativo, financiado compulsoriamente, servido por um punhado de fornecedores que aprenderam que o caminho mais curto para o lucro não passa por conquistar o consumidor, passa por conquistar o comprador público. É um mercado paralelo, sofisticadíssimo, no qual não se compete por preço nem por qualidade percebida pelo usuário final, se compete por familiaridade com o processo licitatório, por capacidade jurídica de responder editais e por relacionamento institucional. Nada disso é ilegal. Tudo isso é caro.
Me diz uma coisa, quando uma empresa privada anuncia crescimento porque assinou um contrato com o governo, ela está celebrando uma vitória do mercado ou uma vitória do arranjo? Na propaganda oficial, virou sinônimo de inovação, parceria público-privada, ecossistema tecnológico. No mundo real, é uma empresa que descobriu que faturar do Tesouro britânico é mais previsível, mais gordo e menos arriscado do que faturar de clientes que podem sempre dizer não. E quando esse modelo se consolida, a lógica empresarial inteira se reorganiza em torno dele: contrata-se advogado de licitação em vez de engenheiro de produto, otimiza-se para o edital em vez de para o usuário, cria-se departamento de relações governamentais em vez de departamento de atendimento ao cliente.
O ciclo se retroalimenta com uma elegância cruel. O Estado cresce, precisa modernizar seus sistemas inchados, contrata fornecedores especializados em atendê-lo, esses fornecedores prosperam na dependência do Estado, viram grupos de interesse organizados, pressionam por mais digitalização, mais transformação, mais projetos, e o próximo contrato de £68 milhões já está sendo estruturado antes mesmo que este saia do papel. É a espiral que engorda de um lado e emagrece de outro, e o lado que emagrece nunca aparece no comunicado à imprensa. O trabalhador que pagou o imposto para financiar essa modernização não vai ser convidado para a cerimônia de assinatura.
A tragédia silenciosa é que boa parte da sociedade aprendeu a chamar isso de progresso. Quando o dinheiro passa do bolso privado para o cofre público e de lá para uma empresa selecionada, criou-se emprego, dinamizou-se o setor, houve investimento em tecnologia. Ninguém pergunta o que teria acontecido com aquele mesmo dinheiro se tivesse permanecido no seu curso natural, financiando as escolhas de quem o produziu. Ninguém pergunta porque a pergunta é politicamente inconveniente e economicamente incômoda. Contrato público bilionário não é notícia de mercado, é notícia de captura. E quem entende isso para de aplaudir e começa a contar os cofres que se esvaziaram para encher aquele.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.