Enrique Riquelme, dono de um império no setor energético espanhol, anunciou que disputará a presidência do Real Madrid quando o atual mandato de Florentino Pérez chegar ao fim. A notícia veio embrulhada na retórica habitual do futebol europeu, paixão, tradição, identidade do clube, o de sempre. Mas por baixo do verniz romântico está o fato concreto, nu, indigesto para os puristas, um magnata de energia decidiu que o ativo mais cobiçado do esporte mundial merece sua atenção empresarial. E está absolutamente certo.
O Real Madrid fatura mais de um bilhão de euros por ano, opera como conglomerado global de mídia, marketing e entretenimento, e ainda assim insiste em manter o figurino de associação de sócios, como se fosse uma confraria de bairro que por acaso vende camisas em Tóquio e Jacarta. Essa esquizofrenia institucional não é detalhe folclórico, é a engrenagem que permite que dirigentes operem bilhões sem a accountability que qualquer S.A. listada teria. Quem entende de fluxo de caixa enxerga o arranjo na hora. Quem entende de poder, mais ainda.
Riquelme não é figurinha exótica caída de paraquedas. É o tipo de candidato que aparece quando o capital decide que o brinquedo virou ativo estratégico. Setor de energia, no século vinte e um, significa contratos públicos, regulação pesada, lobby permanente e relações sustentadas com governos. Não se constrói patrimônio nesse ramo sem aprender a navegar corredores, e corredor de federação esportiva é prato feito para quem já comeu corredor de ministério. A pergunta honesta não é se ele tem competência para tocar o clube. É o que ele pretende extrair, e para quem, ao longo do caminho.
Há uma graça envelhecida na ideia de que o futebol europeu ainda seria refúgio da tradição comunitária contra o avanço bruto do mercado. Os clubes ingleses foram comprados por fundos soberanos do Golfo, por bilionários americanos, por oligarcas de origem duvidosa, e o mundo continuou girando. O Real Madrid, com seu modelo de sócios proprietários, é exceção que confirma a regra, e a regra é simples, onde há receita bilionária, o capital chega, com ou sem licença emocional do torcedor. Resistir a isso com discursos sobre identidade é como tentar parar o vento gritando contra ele.
O ponto, e aqui mora o que ninguém quer dizer, é que o problema nunca foi o empresário querer comprar o clube. O problema é o arcabouço híbrido que finge não ser empresa enquanto opera como empresa, finge ser democrático enquanto concentra poder em meia dúzia de figurões, e finge ser eterno enquanto depende de contratos televisivos renegociados a cada cinco anos. Riquelme apenas escancara essa contradição ao se candidatar. Se vencer, o clube admite finalmente o que é. Se perder, mantém a fantasia por mais um ciclo.
A torcida do Real Madrid descobrirá, mais cedo ou mais tarde, que a pergunta relevante não é se o presidente veio do petróleo, da energia ou de uma família tradicional de Madri. A pergunta é se as regras do jogo institucional permitem que o sócio comum tenha alguma palavra real, ou se a eleição é apenas o ritual que legitima a próxima década de decisões já costuradas em jantares fora dos olhos do público. Cartola gosta de torcedor apaixonado, porque torcedor apaixonado não lê balanço.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.