A manchete chega embrulhada em papel de presente. Mais de 201% de ganhos desde o lançamento, lista atualizada para junho, ações selecionadas por inteligência artificial. O leitor médio, que mal sabe a diferença entre um IPO e um CDB, lê aquilo e sente o coração acelerar. É o velho golpe da pirâmide vendido com sotaque do Vale do Silício. Trocaram o guru de gravata por um algoritmo, mas o roteiro é o mesmo desde que existem incautos com dinheiro no bolso e vendedores com lábia.
Olha, me diz uma coisa. Se uma inteligência artificial fosse capaz, de fato, de prever o mercado com a precisão que prometem, por que diabos o dono dela estaria vendendo a lista por assinatura mensal em vez de operar a própria carteira em silêncio e comprar uma ilha grega? A resposta é constrangedoramente óbvia. Porque o lucro garantido está na assinatura, não no acerto. O verdadeiro modelo de negócio é vender mapa do tesouro, jamais cavar o buraco.
E aqui vem o detalhe que os divulgadores escondem nas letras miúdas. Toda lista milagrosa de rentabilidade acumulada é construída depois do fato, com o benefício da retrovisão. Pegam mil estratégias, jogam contra os dados históricos, descartam as 999 que deram errado e exibem em letras garrafais a única que, por puro acaso estatístico, bateu o índice. Chama-se viés de sobrevivência, e é tão antigo quanto a roleta de cassino. O algoritmo não previu nada. Apenas selecionaram, a posteriori, o que pareceu profecia.
Siga o dinheiro e a paisagem fica ainda mais nítida. Quem ganha de verdade nesse arranjo é a plataforma que cobra assinatura, o portal que lucra com cliques, a corretora parceira que recebe pelo fluxo de ordens, e o influenciador que embolsa o afiliado. O assinante, esse paga pela ilusão de ter saído na frente, quando na prática está na fila de trás, comprando a ação justamente no momento em que os insiders começam a vender. A rentabilidade publicada pertence ao passado de quem não vendeu a lista. O prejuízo futuro pertence ao trouxa que comprou.
Há algo mais profundo nessa moda, e merece ser dito sem rodeios. O mercado é, por natureza, um sistema de conhecimento disperso entre milhões de mentes, cada uma com sua informação local, seus medos, seus cálculos, suas necessidades. Nenhum software, por mais redes neurais que tenha empilhado, substitui essa inteligência coletiva. Acreditar que uma caixa preta, treinada com dados de ontem, vai adivinhar a guerra cambial de amanhã, é a mesma arrogância centralizadora que já quebrou impérios planejadores. Trocaram o burocrata soviético pelo engenheiro de machine learning, mas a pretensão é idêntica.
O conselho que ninguém quer dar, porque não vende assinatura, é o velho e chato. Estude o que você compra, entenda o negócio por trás do ticker, desconfie de quem promete retorno acima da média sem risco proporcional, e lembre-se de que a propaganda mais cara da história do mercado financeiro é aquela que veste o cassino com jaleco de cientista. Quando uma promessa parece boa demais para ser verdade, é porque é. E quando vem com selo de inteligência artificial, é porque encontraram um jeito novo de cobrar caro pela mesma mentira de sempre.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.