Mais de cinquenta pessoas acabam de receber, segundo o regime chavista, o que os porta-vozes oficiais chamam de "medidas alternativas" à detenção na Venezuela. Traduzindo do idioma bolivariano para o português: continuam sob a bota, só que agora a bota vem com coleira eletrônica, assinatura periódica e proibição de abrir a boca. A manchete vende clemência, o fato entrega chantagem. Quando o carcereiro decide afrouxar a corda e chama isso de liberdade, o problema não é a corda, é o carcereiro.
Repare na engenharia semântica, porque ela é o coração do golpe. Primeiro o Estado prende arbitrariamente, sem processo decente, sem defesa plena, sem prazo razoável. Depois, quando a pressão internacional aperta ou o calendário eleitoral incomoda, o mesmo Estado que prendeu ilegalmente se apresenta como benfeitor ao soltar parcialmente. É o clássico esquema do incendiário que vira bombeiro e ainda cobra a conta do resgate. Pior: a imprensa complacente publica o número, cinquenta e tantos, como se fosse estatística de caridade, e não confissão pública de que havia cinquenta e tantos reféns a serem negociados.
E onde está o dinheiro nessa história, porque sempre há dinheiro. Está no petróleo que ainda escorre pela PDVSA sucateada, nas licenças que Washington concede e retira conforme o humor do Departamento de Estado, nos contratos com China e Rússia que garantem oxigênio ao regime, nas remessas dos venezuelanos exilados que ironicamente sustentam o país que os expulsou. Cada preso político solto pela metade é moeda de troca numa mesa onde se negocia sanção, barril e sobrevivência de uma nomenclatura que transformou a maior reserva de petróleo do planeta em fila de padaria vazia. A clemência tem planilha.
Há também a lição pedagógica que todo regime desse tipo aplica com precisão cirúrgica. Solta-se alguns para aterrorizar o resto. O que saiu com tornozeleira vira outdoor ambulante do recado: olha o que acontece com quem discorda, e olha a misericórdia do líder que poderia ter mantido você apodrecendo. A medida alternativa não é alternativa à prisão, é extensão dela pelo território inteiro, é prisão domiciliar do país. A Venezuela virou um presídio com clima tropical, e os soltos servem de propaganda para os que ainda ousam pensar em protestar.
O mais obsceno é observar a reação do jet set diplomático, que engole o comunicado oficial como se fosse avanço civilizatório. Chancelarias que jamais aceitariam esse arranjo em casa aplaudem quando o arranjo acontece a seis horas de avião, desde que haja foto de aperto de mão e declaração conjunta contra "as tensões". É a velha arte de chamar de diálogo o que é capitulação, e de transição o que é consolidação. Enquanto isso, o venezuelano comum continua pagando o preço real: hiperinflação domada no papel por dolarização de fato, salário mínimo que não compra um quilo de carne, êxodo de oito milhões de almas que votaram com os pés porque com a cédula não podiam.
Guarde esta lição, porque ela vale para qualquer latitude, inclusive a nossa. Todo regime que precisa inventar categorias jurídicas novas para disfarçar prisão política já está admitindo que prendeu por política. Medida cautelar, medida alternativa, medida protetiva, medida preventiva, o adjetivo muda, o substantivo permanece: é o Estado decidindo quem pode andar na rua e quem não pode, baseado em critério que não cabe em código nenhum. Quando a palavra liberdade precisa de adjetivo concedido pelo governo, já não é liberdade, é mesada. E mesada, todo mundo sabe, o pai corta quando bem entende.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.