Olha, vamos começar pelo fato concreto, porque o fato concreto é devastador por si só: vinte por cento do petróleo que move o planeta inteiro passa por um estreito de quarenta quilômetros de largura, controlado por um regime que o mundo ocidental passou décadas fingindo que poderia domesticar pela diplomacia. Agora o estreito está fechado, o barril de Brent está acima de cem dólares pela primeira vez desde 2022, e trinta e dois países se reuniram em caráter de emergência para liberar quatrocentos milhões de barris de reservas estratégicas, como se jogar combustível armazenado no mercado fosse uma política energética e não um band-aid sobre uma hemorragia arterial. A cena teria graça se não custasse tão caro.
Me diz uma coisa: onde estavam essas reservas estratégicas quando os mesmos governos passaram os últimos quinze anos decretando que a era do petróleo havia acabado, que a transição energética era inevitável, urgente e tecnicamente viável já, e que qualquer investimento em exploração e refino era um crime ambiental disfarçado de capitalismo? Estavam guardadas exatamente para uma emergência como esta, é verdade. Mas a emergência existe precisamente porque as políticas que aqueles mesmos governos impuseram sobre suas indústrias energéticas criaram a fragilidade que agora tentam remediar. Construíram a dependência e agora vendem a solução. O roteiro é antigo e o final é sempre o mesmo: quem paga é o consumidor, quem anuncia a salvação é o burocrata.
Filipinas declarou emergência nacional de energia. Vietnã e Tailândia introduziram subsídios de combustível e mandaram funcionários públicos trabalhar de casa para reduzir consumo. Mianmar impôs rodízio de circulação de veículos por dia par e ímpar, como se fosse 1973 de novo e a lição ainda não tivesse sido aprendida. O que todas essas medidas têm em comum, além da inutilidade estrutural, é que nenhuma delas produz um barril de petróleo a mais nem resolve a questão que está na raiz de tudo: a concentração absurda do fornecimento energético global numa região que nunca foi estável e que nunca será. Cada subsídio anunciado é uma transferência invisível de riqueza do futuro para o presente, e o futuro, como de costume, não tem lobista nem ministério para defender seus interesses.
Siga o dinheiro e você encontra a estrutura real do problema. O preço do gás natural liquefeito no mercado asiático subiu mais de cento e quarenta por cento após os ataques às instalações do Qatar. Cento e quarenta por cento. Quem lucra com isso? Os produtores americanos de LNG, que de repente se tornaram o fornecedor mais competitivo do planeta. Quem paga? A indústria asiática, que repassa para o produto, que chega mais caro ao consumidor, que já está pagando mais pelo combustível no posto, que já está pagando mais pela conta de luz, que vai em breve pagar mais pelo alimento, porque fertilizante custa energia e energia agora custa uma fortuna. A inflação não chega com declaração de guerra, ela infiltra pelos canos, pelas prateleiras, pelas tarifas de transporte. E quando chegar com força total, os mesmos governos que criaram as condições para ela vão anunciar "medidas de contenção da inflação". O ciclo se fecha, e você está dentro dele sem ter pedido.
O FMI e o Banco Mundial já reduziram as projeções de crescimento global e aumentaram as de inflação. Isso é relevante não pelo dado em si, mas pelo que revela sobre quem estava dirigindo o carro antes da colisão. São as mesmas instituições que aprovaram, financiaram e celebraram as políticas de desinvestimento em energia fóssil que deixaram países inteiros vulneráveis a exatamente este tipo de choque. A pretensão de que um comitê de economistas em Washington pode coordenar a política energética de oitenta países sem produzir distorções catastróficas é a mesma pretensão que faz um planejador central achar que sabe o preço correto de um tomate. A realidade tem um jeito muito próprio de corrigir essa arrogância, e o método dela não é gentil.
A história registra ao menos três momentos em que o mundo ocidental achou que havia resolvido o problema energético pela via política: 1973, 1979 e 2022. Em todos os casos, as reservas estratégicas foram liberadas, os subsídios foram anunciados, os discursos foram feitos, e a crise cedeu quando cedeu, no seu próprio tempo, pelas suas próprias razões, que não incluíam os comunicados oficiais. Hoje é a quarta rodada do mesmo filme, com o mesmo elenco de líderes surpresos, a mesma retórica de solidariedade internacional e o mesmo contribuinte segurando a conta no fim do corredor. O que muda é o preço do barril. O que não muda é quem paga.
Com informações do Valor Econômico, Reuters e Infomoney. A análise e opinião são do O Algoz.