O bloqueio começou nesta segunda-feira às dez da manhã, horário do leste americano, com pelo menos quinze navios da Marinha posicionados no Estreito de Ormuz. A instrução era direta: nenhum navio passa enquanto o Irã não ceder. A frase que Trump usou foi "bloqueio completo, tudo ou nada". O petróleo disparou oito por cento e tocou os cento e três dólares o barril. Analistas de Wall Street, que normalmente evitam o apocalipse nos títulos de relatório, já calculam duzentos dólares o barril caso a situação não se resolva rápido. Um quinto do abastecimento energético do planeta inteiro passa por esse canal de quarenta e oito quilômetros, e agora quarenta e oito quilômetros têm quinze navios de guerra decidindo o que entra e o que sai.

A narrativa oficial é a do ultimato civilizado: os Estados Unidos tentaram a paz em Islamabad, o Irã recusou abrir mão do programa nuclear, as conversas quebraram, e Trump decretou o embargo. Versão limpa, heróis e vilões nos lugares certos. O problema com versões limpas é o que elas omitem. O Irã estava há semanas cobrando pedágio de mais de um milhão de dólares por navio para deixar passar pela passagem que controla e, ao mesmo tempo, exportando seu próprio petróleo com lucro extraordinário, justamente porque os preços subiram com o conflito que ele mesmo alimenta. O embargo americano vai cortar essa torneira, sim. Mas vai cortar junto o fornecimento de vinte por cento do petróleo mundial. Não existe cirurgia de precisão quando o bisturi é uma frota naval.

Há um custo visível nessa operação: a pressão sobre Teerã, a sinalização de força americana, a tentativa de forçar o regime a negociar. E há um custo invisível, que ninguém coloca no comunicado do Pentágono: o caminhoneiro indiano que vai pagar mais pelo diesel, o agricultor brasileiro que vai ver o custo do frete disparar, o consumidor europeu que já carrega conta de energia absurda desde a guerra da Ucrânia e vai carregar ainda mais. A grandiosidade da diplomacia de força tem uma característica universal: quem desenhou a operação não paga o preço. O preço é distribuído democraticamente entre pessoas que não votaram em ninguém envolvido nessa decisão.

O Reino Unido disse que não vai participar do bloqueio. Alegou "liberdade de navegação" e preocupação com o custo de vida doméstico. Note bem: o aliado histórico de Washington na OTAN, que participou de todas as aventuras militares americanas das últimas décadas com entusiasmo variável, dessa vez disse não. Isso não é detalhe de protocolo. É um sinal de que até as chancelarias que costumam aplaudir os grandes gestos americanos estão calculando o preço da conta energética para seus eleitores. A virtude do gesto fica muito mais difícil de defender quando a gasolina chega a dois libras o litro.

O Irã tem um regime que sobreviveu a décadas de sanções, guerras por procuração, assassinatos de cientistas, sabotagem de infraestrutura nuclear e colapso econômico recorrente. A pergunta que os estrategistas de Washington deveriam fazer, antes de posicionar quinze navios de guerra no estreito mais estratégico do planeta, é simples: por que dessa vez vai ser diferente? Regimes que sobreviveram quarenta e sete anos de pressão ocidental desenvolveram uma habilidade curiosa de transferir o sofrimento econômico para a população enquanto mantêm a aparelhagem de poder intacta. O povo iraniano vai passar mal. O Conselho dos Guardiães vai continuar no poder.

No fim, o que está sobre a mesa é uma aposta de alto risco em que o apostador mais poderoso do planeta está jogando com fichas que não são inteiramente suas. Se o Irã ceder, Trump ganhou uma vitória histórica e a narrativa do negociador implacável se consolida. Se o Irã aguentar, ou pior, se algum incidente naval transforma o bloqueio em confronto direto, o preço do petróleo vai à estratosfera e a economia global entra em choque numa hora em que tarifas comerciais já pressionam cadeias de produção em todo o mundo. Apostar é uma coisa. Apostar com o dinheiro alheio é outra. E o dinheiro alheio, aqui, é medido em barris de petróleo que alimentam geladeiras, hospitais e indústrias de pessoas que nunca tinham ouvido falar de Ormuz até hoje de manhã.

Com informações da ZeroHedge. A análise e opinião são do O Algoz.