A Marqeta, aquela fintech californiana que emite cartões para meio mundo de aplicativo que você usa sem saber, anunciou Lukasz Strozek como novo diretor de Tecnologia. O comunicado veio com o vocabulário de sempre, escalabilidade, inovação, plataforma de próxima geração, palavras-ônibus que cabem em qualquer release de qualquer empresa de qualquer setor desde que o assunto seja tecnologia e o objetivo seja não dizer nada de concreto. Quer dizer, trocou o CTO. E daí?

O daí é que o setor de pagamentos digitais virou, nos últimos anos, um dos campeões mundiais em queimar dinheiro de investidor para entregar margem negativa, depois prometer que a margem vai virar no próximo trimestre, depois no próximo ano, depois quando a escala chegar, depois quando o juro cair, depois quando Marte for colonizado. A Marqeta abriu capital em 2021 valendo dezenas de bilhões e desde então o papel passou pelo moedor que toda promessa tecnológica passa quando o dinheiro fácil acaba. Trocar de CTO nesse cenário não é gestão de tecnologia, é gestão de narrativa para o mercado.

Olha, ninguém troca um executivo de primeiro escalão numa empresa pública sem que existam três ou quatro motivos por trás, e dois deles costumam estar enterrados nas notas de rodapé do próximo balanço. O CTO anterior saiu silenciosamente, e o novo entra com a missão clássica desse tipo de transição, fazer parecer que o problema técnico é a explicação para o problema financeiro. Não é. Em fintech de cartões, o problema raramente é o código. O problema é o modelo, é a captura regulatória das maquininhas, é a dependência de poucos clientes corporativos, é o juro alto que enxugou a liquidez que sustentava a brincadeira inteira.

E aqui entra a parte que o jornalismo econômico de planilha não toca. Esse mercado de pagamentos que se vende como disrupção é, na prática, uma teia de licenças, parcerias bancárias e privilégios regulatórios que blindam alguns poucos jogadores enquanto o pequeno empreendedor paga taxas absurdas para receber seu próprio dinheiro com três dias de atraso. Se a brincadeira fosse mesmo livre concorrência, o cartão de crédito custaria uma fração do que custa, e a Marqeta da vida não precisaria de um diretor novo para reorganizar o que dezenas de bancos centrais já organizaram a favor dela.

O ponto, no fim das contas, é que o release fala de tecnologia mas o assunto é dinheiro, e o dinheiro nesse setor circula num circuito fechado entre fintechs, bancos parceiros, processadoras de bandeira e reguladores que escrevem as regras com a caneta emprestada pelos regulados. Trocar o CTO é trocar a cara da operação, não a engrenagem. A engrenagem segue exatamente igual, cobrando do varejo, beneficiando o intermediário e prometendo, sempre prometendo, que o próximo trimestre vai ser o ponto de inflexão.

No mercado de pagamentos, o nome do executivo muda. O bolso de quem paga a conta, esse continua sendo o mesmo de sempre.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.