A Bourse de Casablanca fechou em queda de 0,54% e a imprensa financeira registrou o fato com a frieza de quem anota a temperatura da tarde. Nada a ver aqui, sigam em frente. O Marrocos tem PIB projetado entre quatro e cinco por cento para 2026, o banco central está satisfeito, a inflação está domesticada em menos de um por cento, e o país acaba de ser reconhecido pelos Estados Unidos como parceiro estratégico em minerais críticos graças ao seu fosfato. Tudo muito animador. Tudo muito conveniente. E exatamente por isso vale a pena parar e perguntar o que está sustentando esse banquete.

O motor do crescimento marroquino tem nome e endereço: quarenta e um bilhões de dólares em investimentos de infraestrutura aprovados pelo Estado para preparar o país para a Copa do Mundo de 2030. Estádios, ferrovias, aeroportos, estradas. O FMI, que não é exatamente uma voz radical ou heterodoxa, já emitiu alerta formal sobre os riscos fiscais dessa equação. Oito bilhões e meio de reais equivalentes alocados só em 2026 para obras de transporte. É muito dinheiro entrando na veia da economia, e quem não entende de ciclos econômicos vê isso como prosperidade. Quem entende sabe que é um estimulante, não um nutriente. Estimulantes produzem euforia e ressaca, nessa ordem.

O ponto que os analistas educados preferem não nomear é simples: um país não fica rico construindo estádio. A obra é visível, o custo invisível. Vê-se o trabalhador empregado na construção da arena, não se vê o empreendedor que deixou de contratar porque o crédito que poderia tomar foi sugado pelo Tesouro para financiar a vitrine olímpica. Vê-se o PIB subindo, não se vê o que o PIB poderia ter sido se a iniciativa privada, e não o planejamento estatal, tivesse conduzido a alocação desses recursos. Isso não é teoria, é a mesma lógica que explica por que países que sediaram Copas e Olimpíadas raramente saem do evento mais ricos do que entraram.

Por cima disso tudo, repousa o OCP Group, o monopólio estatal de fosfatos que o Marrocos usa como coluna vertebral da sua política industrial. O fosfato é de longe o ativo mais estratégico do país, e ele pertence ao Estado, que por sua vez pertence ao Makhzen, a estrutura palatina que há décadas decide quem produz, quem exporta e quem fica com o quê. O fato de os Estados Unidos terem incluído o fosfato marroquino na lista de minerais críticos em fevereiro deste ano não é reconhecimento do livre mercado, é geopolítica pura: Washington quer garantir acesso ao fertilizante que alimenta meio mundo, e para isso fecha os olhos para a natureza monopolista do negócio. Não existe livre mercado de fosfato marroquino. Existe um Estado decidindo a quem vender e a que preço.

O dirham, moeda marroquina, é administrado pelo banco central numa cesta de euro e dólar. O país está, em 2026, supostamente iniciando uma flexibilização gradual desse peg, mas "gradual" e "controlada pelo banco central" são qualificativos que revelam a filosofia subjacente: o governo sabe melhor do que o mercado qual deve ser o valor da moeda. Essa premissa nunca foi verdadeira em lugar algum, e o Marrocos não será a exceção histórica que a confirma. A transição cambial controlada é uma contradição nos termos, como uma descompressão de mergulho planejada por quem nunca mergulhou. Quando a realidade corrige o que o burocrata manteve artificialmente no lugar, a correção raramente é gentil.

A queda de 0,54% na bolsa de Casablanca, por si só, não diz nada. Bolsas oscilam. O que ela oferece é uma brecha, um segundo de silêncio entre um discurso otimista e o próximo, onde é possível perguntar: quando o dinheiro da Copa acabar, quando as obras ficarem prontas e as câmeras de transmissão forem embora, quando o fosfato perder o brilho geopolítico e o banco central não conseguir mais segurar o peg, o que o Marrocos terá construído de fato? Um país ou um cenário? Um mercado ou uma fachada bem pintada? A bolsa caiu meio por cento. A pergunta real está esperando para cair também, e essa vai doer muito mais.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.