A Mastercard divulgou números do primeiro trimestre acima do que o consenso de mercado esperava, lucro robusto, volume de transações em alta, e a explicação oficial vem embrulhada num adjetivo que virou mantra dos relatórios financeiros: o consumidor está resiliente. Quer dizer, gasta porque está bem. Me diz uma coisa, desde quando passar mais cartão é sinônimo de prosperidade? A última vez que vi alguém estourando o limite com sorriso no rosto, era porque o salário não tinha chegado e a conta de luz não esperava.

O que está por trás desse número bonito é menos virtude econômica e mais aritmética inflacionária. Quando o poder de compra da moeda derrete na velocidade em que vem derretendo nos últimos anos, o mesmo carrinho de supermercado custa trinta por cento mais, a mesma diária de hotel custa quarenta por cento mais, o mesmo jantar custa o dobro. A Mastercard cobra um percentual sobre o valor transacionado. Se os preços sobem, o faturamento da bandeira sobe junto, mecanicamente, sem que ninguém tenha consumido um único item a mais. É a tarifa silenciosa da impressora de dinheiro repassada a um intermediário privado que, convenhamente, fica com sua fatia da pilhagem.

E há a parte que ninguém coloca no release trimestral. O endividamento das famílias, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, está em patamares que assustariam qualquer economista honesto se ainda existisse essa categoria em quantidade relevante. Cartão rotativo americano passou de um trilhão e duzentos bilhões de dólares. No Brasil, o juro do rotativo continua naquele paraíso fiscal de quatrocentos por cento ao ano que envergonharia agiota de bairro. O consumidor não está resiliente, está refém. Continua passando o cartão porque parou de poder pagar à vista, e a indústria financeira chama isso de boa notícia para os acionistas.

Vale olhar quem ganha nessa engrenagem e quem paga. Ganha a bandeira, que extrai sua taxa em cada transação. Ganha o banco emissor, que cobra juros estratosféricos sobre o saldo não pago. Ganha o governo, que arrecada imposto sobre o consumo nominalmente inflado e ainda finge que controla a moeda enquanto a deprecia em câmara lenta. Quem paga é o sujeito que acorda cedo, produz alguma coisa de utilidade real no mundo, e descobre no fim do mês que seu salário compra menos do que comprava no mês passado. A diferença evaporou em direção aos balanços trimestrais que Wall Street celebra.

O mais cínico é o vocabulário escolhido para descrever o fenômeno. Resiliência, força do consumidor, economia aquecida. São eufemismos elegantes para descrever uma população que está rodando o cartão porque a poupança secou, o salário não acompanhou, e o crédito virou a única forma de manter a aparência de uma vida que já não cabe mais no orçamento. Chamar isso de resiliência é o mesmo que chamar afogado de nadador entusiasmado. A linguagem mente para que o número possa mentir com cara de verdade.

O lucro da Mastercard não é prova de que a economia vai bem, é prova de que o sistema monetário continua transferindo riqueza de quem produz para quem intermedeia, com a bênção de bancos centrais que fingem combater a inflação que eles mesmos fabricam. Enquanto o cidadão comum aplaude o dólar caindo dois centavos numa quarta-feira, sua aposentadoria perdeu silenciosamente outro pedaço naquela mesma manhã. A festa do balanço trimestral é a ressaca do trabalhador parcelada em doze vezes sem juros, propaganda enganosa cortesia da casa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.