A notícia chega seca, quase burocrática, daquelas que o leitor distraído passa o olho e vira a página. McDonald's pagará US$ 1,86 por ação no próximo trimestre, depósito marcado, calendário cumprido, ritual repetido pela enésima vez desde 1976. Cinquenta anos de cheques sem falhar um único trimestre, atravessando recessão, pandemia, guerra, eleição americana, crise do subprime, estouro da bolha das ponto-com, e a empresa do hambúrguer continua transferindo caixa para o bolso de quem teve a paciência de segurar o papel. Enquanto isso, o sujeito que riu do investidor "burguês" há vinte anos hoje faz boia no fim do mês com o salário corroído pela inflação que ele mesmo ajudou a eleger.
Olha, a matemática aqui não é complicada, é só desconfortável. Quem comprou cem ações da rede em 2005 pagou algo perto de três mil dólares. Hoje recebe, só de dividendo, mais de setecentos dólares por ano, sem mexer um dedo, sem vender nada, sem pedir aumento ao patrão. O papel multiplicou de valor no caminho, claro, mas o ponto nem é esse. O ponto é que existe um arranjo legal, transparente, acessível a qualquer pessoa com cem dólares na carteira de corretagem, que transforma capital em renda recorrente, e a esmagadora maioria da população prefere acreditar que isso é privilégio de elite, conspiração de Wall Street, ou pior, exploração.
Quer dizer, é exploração? Uma empresa que vende sanduíche para bilhões de pessoas voluntariamente, em duzentos países, sem polícia obrigando ninguém a entrar na loja, e que reparte parte do lucro com quem financiou a operação comprando ações no mercado aberto, isso é exploração? O vocabulário foi sequestrado faz tempo, e a palavra exploração hoje significa qualquer coisa que o ressentido queira que signifique. O verdadeiro arranjo explorador está em outro lugar, está no imposto inflacionário que come o salário do trabalhador sem ele perceber, está na taxa Selic manipulada por um comitê de iluminados que decide o preço do dinheiro como se fosse atribuição divina, está no orçamento público gastando o que não tem e empurrando a conta para a próxima geração.
O dividendo do McDonald's é só um sintoma daquilo que o brasileiro médio foi treinado a não enxergar, e olha que está bem na cara. Existe um mundo em que o capital trabalha pelo dono, e existe outro mundo em que o dono trabalha pelo capital alheio. A diferença entre os dois mundos não é sorte, herança ou esquema secreto. É decisão de longo prazo, é diferimento de consumo, é a capacidade rara de não gastar tudo que entra no fim do mês. Em uma cultura que canoniza o consumo imediato, que parcela tênis em doze vezes e financia churrasco no cartão, propor que alguém junte trezentos reais por mês e compre ação de empresa lucrativa soa quase como sermão de outro planeta.
E aqui mora a beleza ácida da história. Enquanto o discurso oficial bate na tecla de que a culpa pela pobreza é do "sistema", o sistema continua, indiferente, distribuindo dividendo trimestral para quem se deu ao trabalho de entender como ele funciona. Não há porteiro na bolsa, não há exame de admissão na corretora, não há clube secreto. Há apenas a barreira do esforço intelectual de aprender o que ninguém ensinou na escola pública, justamente porque a escola pública foi capturada por gente que tem interesse em manter o eleitor dependente, queixoso e financeiramente analfabeto. O voto do miserável vale mais para o demagogo que o voto do acionista, e por isso o miserável é cuidadosamente preservado em sua condição.
O cheque de US$ 1,86 cairá na conta de quem se posicionou, e a manada continuará reclamando do preço do Big Mac sem perceber que poderia estar do outro lado do balcão, recebendo um pedacinho de cada sanduíche vendido no mundo inteiro. Não é privilégio, é escolha. E quem escolhe mal, depois reclama do sistema, é exatamente o tipo de eleitor que mantém o sistema funcionando do jeito que está.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.