A Marks & Spencer voltou a sorrir. Depois do ataque hacker que derrubou sistemas, esvaziou prateleiras e empurrou as ações para o abismo no ano passado, a centenária varejista britânica anuncia que o lucro deve retornar aos patamares de crescimento anteriores ao desastre. Wall Street, ou melhor, a City de Londres, aplaude. As manchetes celebram a "resiliência". Os relatórios falam em "recuperação robusta". E ninguém, absolutamente ninguém, faz a pergunta que importa: quem ganhou enquanto a M&S sangrava?
Porque toda crise corporativa tem dois lados, o que se vê e o que não se vê. O que se vê é a empresa retomando o fôlego, os executivos batendo no peito, o conselho distribuindo bônus pela "gestão exemplar da crise". O que não se vê é a multidão de pequenos fornecedores que foram esmagados nos meses em que a M&S não pagou em dia, os funcionários de loja que viraram bucha de canhão enquanto o sistema não respondia, os clientes que migraram para concorrentes e nunca mais voltaram. A recuperação contábil esconde a destruição real que ficou pelo caminho.
E há ainda a outra ponta, mais suja, mais interessante. Toda vez que uma gigante varejista é atacada por hackers, surge no dia seguinte uma indústria inteira de consultores de cibersegurança, auditores, advogados especializados em compliance, lobistas pedindo nova regulação europeia, executivos governamentais oferecendo "parcerias público-privadas" para proteger o varejo. Siga o dinheiro e você encontra exatamente o mesmo padrão que se repete há décadas. O ataque é a oportunidade. O caos é o mercado de alguém. A vítima paga duas vezes, uma pelo prejuízo, outra pela proteção que agora é obrigatória.
O cinismo da narrativa é o que mais incomoda. Vende-se a história como se a M&S tivesse vencido sozinha um inimigo externo, quando na verdade boa parte da vulnerabilidade veio de dentro, de décadas de terceirização barata de TI, de sistemas legados remendados com cuspe digital, de uma cultura corporativa que tratava cibersegurança como linha de custo a ser cortada e não como infraestrutura crítica. O hacker apenas explorou a porta que a própria empresa deixou aberta para economizar alguns milhões no trimestre. Mas isso ninguém escreve no comunicado oficial.
Quer dizer, há lição aqui que vai muito além da M&S. Toda empresa que prioriza engenharia financeira sobre engenharia real está construindo casa em terreno minado. Recompra de ações em vez de modernização de sistemas, dividendo gordo em vez de investimento sério em segurança, executivo bem pago para apertar parafusos contábeis em vez de técnico bem pago para manter infraestrutura. Quando o terreno explode, e sempre explode, o discurso da resiliência aparece para encobrir a imprudência. E o mercado, esse animal de memória curta, compra a história e empurra a ação para cima.
O que a M&S nos ensina não é como sobreviver a um ataque cibernético. É como uma marca centenária, com goodwill acumulado por gerações, pode absorver imprudências contemporâneas que destruiriam empresas menores em dias. O capital reputacional construído por décadas funciona como amortecedor para erros que jamais seriam tolerados num concorrente jovem. Isso não é vitória da gestão, é vitória da inércia histórica. E inércia histórica, como a própria empresa vai descobrir mais cedo ou mais tarde, é um ativo que se gasta a cada novo desastre que se trata como acidente.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.